Uma amizade que o tempo guarda: E o quarto que espera

Coluna Brasil

Garanhuns guarda um tipo de silêncio que só o interior sabe fazer. Um silêncio que não é ausência, é presença. O cheiro da terra, o vento que passa devagar, o som dos pássaros que ninguém mais se lembra de nomear. É nesse silêncio que Maria vive. Maria Betânia, chamada só de Maria, porque a vida foi simplificando as coisas com o tempo, como simplifica tudo que é verdadeiro.

A casa é ampla. A simplicidade também.

Maria beira os oitenta anos com a leveza de quem carregou muito e aprendeu a depositar o peso onde cabe: nas mãos de Nossa Senhora, que ela chama em voz baixa, como se fosse conversa de quintal. Viúva do Bié. Mãe do Sandro, da Goreti, da Inês, da Verônica, da Cristiane. Avó de muitos. Bisa de alguns. Carinhosa com os bichos que aparecem pela soleira, como se soubessem que ali encontrarão cuidado.

Ela não canta como a Betânia das músicas, mas quem disse que é preciso?

Há uma certa poesia em ser Maria.

Do outro lado do Brasil, em São Paulo, vive a amiga Biazoli. A distância entre as duas é de mais de dois mil quilômetros, mas a amizade nunca aprendeu geografia.

Elas se encontraram num quintal dividido. Foi assim, simples assim. Maria tinha vindo do Nordeste como tantos outros, retirante no coração e esperançosa nos pés, em busca de algo melhor que o Nordeste naquele tempo não podia oferecer. Morou de aluguel. E foi num desses aluguéis que o destino encarregou-se de colocar duas mulheres no mesmo espaço, separadas apenas por uma cerca baixa e aproximadas por tudo o mais.

Mais de três décadas depois, a cerca sumiu. A amizade ficou.

Tem duas histórias que ambas as amigas guardam no lugar onde as pessoas guardam o que não querem perder junto as história a gratidão que nunca se esquece

A primeira é a do fusquinha.

Biazoli sabia do desejo da amiga, aquela vontade pequena e quase envergonhada de dirigir um carro, uma dessas coisas que a gente guarda para si achando que nunca vai acontecer. Um dia, sem avisar, Biazoli a levou a um campo aberto, largo, sem ninguém por perto. E entregou o volante.

Com calma. Com aquela paciência que só as pessoas muito gentis têm.

A amiga, ali, guiada por mãos amigas, dirigiu por alguns momentos um fusquinha num campo de São Paulo,  e não sabe até hoje como uma coisa tão pequena pôde ser tão grande. Nunca Biazoli saberia o tamanho do que fez. E talvez seja esse o segredo das pessoas como ela: a generosidade que não se mede porque não foi pensada para ser medida.

A segunda história é a da maternidade.

Quando chegou a hora, foi Maria quem ficou. Cuidou da casa, cuidou da filha, cuidou do que precisava ser cuidado com a seriedade silenciosa de quem não precisa ser pedida duas vezes. E no segundo filho,  esse quase chegou pelo caminho, tamanha a pressa de vir ao mundo, Maria estava lá, presente, inteira, naquele tipo de presença que algumas pessoas têm e que nenhuma palavra explica direito.

O crochê de Maria ia crescendo nos dedos enquanto a amizade crescia na vida das duas.

Maria ainda em São Paulo, viam-se pouco. Mas quando se viam, havia abraços que compensavam a distância. Palavras doces que não precisavam ser muitas. O tipo de encontro que deixa a pessoa aquecida por dias.

Maria voltou para Garanhuns. A saudade passou a morar entre telefonemas e mensagens, entre o “oi, sumida” e o “estava pensando em você”. A tecnologia encurtou o que a distância tentou alongar,  mas não substituiu o cheiro da casa, a textura do abraço, o ritmo do andar da amiga pelo corredor.

Maria preparou um quarto.

Ela mesma conta isso, com aquele jeito dela, sem exagero, sem drama. Mostrou para a amiga, em chamada de vídeo,  em palavra, em promessa,  o quarto onde ela ficará quando vier. A cama está feita na imaginação de Maria, a janela abre para o vento de Garanhuns, e há um espaço guardado que só a amiga de São Paulo pode preencher.

O sonho permanece. A distância também. E o tempo,  esse que não espera, que escorrega entre os dedos com a mesma leveza com que chegou, o tempo passa.

A amiga de São Paulo luta para que os pés a levem para junto da amiga. Para que possam caminhar juntas mais uma vez, em qualquer carro, por qualquer rua. Rir do que só elas entendem. Fazer confidências no tom baixo de quem tem muito para contar e sabe que o outro vai ouvir até o fim.

Dois mil quilômetros entre São Paulo e Garanhuns.

Um quarto que espera.

Uma amizade que não aprendeu a terminar.

E Maria, devotinha de Nossa Senhora, reza. Reza com aquela fé mansa de quem acredita que o que é verdadeiro encontra um jeito de se completar.

O quarto está pronto.

Vem amiga,  vem…

Sobre a Autora
Adriana Biazoli

Adriana Biazoli é jornalista, escritora, contadora de histórias e apaixonada pela arte de comunicar. Com sensibilidade e escuta atenta, transforma encontros e vivências em narrativas que tocam o coração. Avó de três , sendo uma; criança autista, escreve para informar, acolher e inspirar.

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Nossa Oeste- Jornalismo com propósito 

Por:  Adriana Biazoli

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