Existe uma escola que não tem carteira, nem lousa, nem horário fixo para começar. Ela abre as portas todo dia, em qualquer lugar, e cobra uma única matrícula: a disposição de estar presente.
A vida é essa escola. E ela nunca para de ensinar.
Ao longo dos anos, trabalhei em muitas profissões. Mas foi na recepção de um hospital que aprendi algumas das lições mais silenciosas e mais profundas que alguém pode aprender sobre o ser humano.
Digo sempre: o tratamento começa na recepção.
Não com o médico, não com o remédio. Começa no primeiro olhar que alguém recebe ao entrar pela porta, ainda assustado, ainda com a dor que veio de casa, ainda carregando o peso de não saber o que vai encontrar. É ali, naquele primeiro momento, que uma pessoa descobre se vai ser vista ou apenas atendida.
Aprendi a olhar nos olhos. E quem aprende isso descobre que os olhos contam tudo antes que a boca diga qualquer coisa. A dor que mal se sustenta. A falta de ar que a voz ainda tenta esconder. A angústia dos que chegam acompanhados de familiares aflitos, que precisam de resposta antes mesmo de sentar.
Aprendi a me colocar no lugar do outro. E foi dessa forma que sempre ofereci o melhor de mim, o olhar mais terno, o sorriso mais afável, a palavra dita na hora certa com o cuidado de quem sabe que às vezes uma frase é o único remédio que cabe naquele momento.
Com o tempo, os pacientes que retornavam, com crises de hipertensão, diabetes, asma, as doenças que voltam porque fazem parte da vida, já nos chamavam pelo nome. E nós a eles. Aquela proximidade não era protocolo. Era humanidade funcionando como deveria funcionar sempre.
Sei o que é chegar ao fim de um dia inteiro de trabalho e encontrar um filho com febre esperando. Sei o que é nem tirar o sapato e já estar de volta em pé, segurando uma criança que não entende por que dói. Sei o quanto é frustrante esperar quando a exaustão já chegou antes da fila.
E sei também o que é ir sozinho ao hospital.
Aquela sensação de abandono que não tem nome certo, mas que todo mundo que já passou por isso reconhece. Muitos deixam para ir quando não aguentam mais — porque não tiveram ninguém para ir antes, ou porque nem tempo de adoecer tiveram.
É para essa pessoa que o seu jeitinho especial faz toda a diferença.
Nos plantões mais calmos, eu me esgueirava pelos corredores. Entrava nos quartos dos pacientes cujas famílias moravam longe e não vinham com frequência. Batia papo. Fazia um afago na cabeça. Pegava na mão. E dizia, com toda a convicção que conseguia reunir: tudo vai dar certo.
Mesmo quando eu sabia que era um caso grave.
Mesmo quando as palavras precisavam ser maiores do que a realidade permitia.
Fui muito feliz fazendo meu trabalho assim, com carinho, com presença, com a consciência de que aquilo importava. Aprendi também do outro lado, como paciente. Portadora de asma grave por anos, aprendi na pele que as agulhas machucam. Mas que o desprezo e a indiferença machucam muito mais.
O que cura não é só o remédio. É saber que alguém te viu. Te ouviu. Ficou.
Às vezes, é só isso que falta.
Não importa o que você faça. Faça com amor. Porque o amor que você coloca no trabalho não fica só no trabalho — ele vai embora com cada pessoa que passa pela sua porta.
Sobre a autora:

Adriana Biazoli, é jornalista, escritora, contadora de histórias e apaixonada pela arte de comunicar. Com sensibilidade e escuta atenta, transforma encontros e vivências em narrativas que tocam o coração. Avó de três , sendo uma; criança autista, escreve para informar, acolher e inspirar.
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