O paliativo e a despedida: Quem vence quem?

Acontece

Por Adriana Biazoli

Quando alguém enfrenta uma doença grave, é comum ouvirmos expressões como: “perdeu a batalha” ou “foi vencido pela doença”. Durante muito tempo, essas frases pareceram naturais. Hoje, porém, acredito que existe outra maneira de olhar para essa caminhada.

Nem toda vitória pode ser medida pela cura.

Há pessoas que, mesmo diante do sofrimento, descobrem uma força que desconheciam. Aprendem a valorizar pequenos gestos, aproximam-se da família, fazem as pazes consigo mesmas, reencontram a fé ou simplesmente passam a enxergar a vida com mais gratidão.

Outras, infelizmente, permitem que a dor endureça o coração. A revolta toma o lugar da esperança. O sofrimento, que poderia ensinar, acaba aprisionando.

A dor coloca todos nós diante de uma escolha.

Ela pode nos levar para um lugar frio, onde o medo, o rancor e o desânimo parecem dominar tudo. Ou pode nos transformar, lapidando nossa maneira de enxergar o mundo e as pessoas.

Ninguém escolhe sofrer. Mas cada pessoa pode escolher como caminhar enquanto enfrenta o sofrimento.

Conheci histórias de homens e mulheres que, mesmo fragilizados fisicamente, tornaram-se gigantes na forma de amar. Descobriram que dinheiro, poder e reconhecimento têm pouco valor quando comparados a um abraço sincero, a uma palavra de carinho ou à presença de quem se ama.

Essas pessoas talvez não tenham controlado o rumo da doença, mas mantiveram viva a dignidade, a esperança e o amor. E isso ninguém consegue derrotar.

A vida nos lembra diariamente de nossa fragilidade. Somos limitados na força do corpo, mas extraordinários na capacidade de amar, de perdoar e de inspirar.

Talvez a verdadeira pergunta nunca tenha sido quem venceu a doença.

A pergunta seja: o sofrimento conseguiu roubar a humanidade daquela pessoa?

Quando a resposta é não, há uma vitória que nenhuma estatística consegue medir.

Se você está atravessando um momento difícil, permita-se sentir medo, chorar e até se cansar. Mas não entregue à dor aquilo que ela jamais deveria levar: sua capacidade de amar, de acreditar e de encontrar sentido em cada novo amanhecer.

Porque, às vezes, a maior vitória não está em mudar o destino da caminhada, mas em preservar quem somos durante todo o percurso.

Sobre Autora

Adriana Biazoli

 

Adriana Biazoli,  é jornalista, escritora, contadora de histórias e apaixonada pela arte de comunicar. Com sensibilidade e escuta atenta, transforma encontros e vivências em narrativas que tocam o coração. Avó de três , sendo uma; criança autista, escreve para informar, acolher e inspirar.

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