Volúvel inaugura um novo momento para o Corpo de Macumba, aproximando ancestralidade indígena, migração, território e pertencimento.
Entre memórias familiares, ancestralidade amazônica e investigação cênica sobre identidade e pertencimento, o espetáculo Volúvel estreia temporada no Sesc Ipiranga entre os dias 24 de julho e 16 de agosto. Com dramaturgia e atuação de Jota Silva e direção de Venâncio Cruz, a montagem inaugura um novo momento da pesquisa desenvolvida pelo coletivo Corpo de Macumba, aprofundando questões relacionadas à experiência cabocla, à migração e aos modos de resistência construídos por mulheres historicamente excluídas dos registros oficiais.
O espetáculo nasce de uma memória íntima e ancestral: a história de Cabocla Conceição Maria, avó de Jota Silva. Nascida com uma deficiência física, cresceu cercada por práticas de cura transmitidas pelos saberes populares da floresta. O ritual realizado por seus familiares para tratar suas pernas ainda na infância, torna-se a imagem inaugural da encenação e o ponto de partida para uma investigação que articula memória pessoal, herança ancestral e processos históricos mais amplos.
Ao acompanhar a trajetória de Conceição Maria, desde sua vida no Norte do país até a passagem pelo garimpo de Serra Pelada, o espetáculo amplia o olhar para outras experiências compartilhadas por inúmeras mulheres caboclas da Amazônia e do Norte brasileiro. Mulheres responsáveis pela preservação de conhecimentos, pela sustentação de famílias e pela transmissão de saberes que atravessaram gerações, mas que raramente tiveram suas histórias registradas ou reconhecidas.
Em cena, fotografias ausentes, documentos fragmentados e lembranças familiares tornam-se matéria dramatúrgica para discutir os mecanismos de invisibilização que atravessam a construção da memória nacional. A partir dessas lacunas, Volúvel busca devolver presença e protagonismo a trajetórias frequentemente apagadas da história oficial.
A narrativa transita entre autobiografia, memória coletiva e pesquisa sobre a identidade cabocla, construindo um território poético onde experiências individuais se conectam a processos históricos e culturais mais amplos. Ao colocar essas mulheres no centro da criação, a montagem evidencia a importância de seus modos de existir, de seus sistemas de conhecimento, práticas de cura, espiritualidades e formas de resistência como parte fundamental da experiência brasileira.
Sobre o Corpo de Macumba
Corpo de Macumba é um coletivo de múltiplas linguagens anticoloniais. O grupo surge a partir do aquilombamento entre artistas negros, afro-indígenas e indígenas, em sua maioria LGBTQIAPN+, residentes principalmente nas periferias da cidade de São Paulo. A pesquisa se debruça sobre as confluências entre as pautas que atravessam as corpas que o compõem, projetando a criação de novos imaginários sociais e estéticos.
Esse aquilombamento se materializou no espetáculo “FETO PRETO – um experimento de macumba para as nossas curas”, apresentado no Galpão Folias, Sesc Carmo, Festival Satyrianas e no projeto The Performance Studio, do Brighton CCA (Inglaterra).
O coletivo fundamenta sua pesquisa nos conceitos de contracolonização, inspirados no pensamento de Antônio Bispo, e de novas possibilidades de afeto, a partir das reflexões de bell hooks. Essa investigação atravessa territórios de resistência, dialogando com espiritualidades de matrizes africanas, memórias ancestrais indígenas e práticas contemporâneas, ao mesmo tempo em que questiona e subverte narrativas coloniais hegemônicas.
SERVIÇO:
Volúvel
Com: Jota Silva
Direção: Venâncio Cruz
Criação: Coletivo Corpo de Macumba.
De 24 de julho a 16 de agosto, sextas, às 21h, sábados e domingos, às 18h30
Auditório | 16 anos | 60 minutos
Ingressos: disponíveis no portal sescsp.org.br ou pessoalmente nas unidades do Sesc São Paulo. Valores: R$50,00 (inteira), R$25,00 (estudante, servidor de escola pública, idosos, aposentados e pessoas com deficiência), R$15,00 (credencial plena).
SINOPSE
Uma neta migra do norte para a cidade grande atrás de algo que valha mais que ouro. Sua avó, cabocla sabedora de curas, constrói uma vida de forma volúvel em sua migração do Maranhão ao Garimpo da Serra Pelada. No meio do caminho, na encruzilhada, um diário aparece onde as duas escrevem juntas as histórias delas e de muitas outras brasileiras.
FICHA TÉCNICA:
Idealização: Corpo de Macumba
Direção: Venâncio Cruz
Direção de Movimento: Castilho
Dramaturgia e Encenação: Jota Silva
Sonoplastia: Carolina Mota
Iluminação: Bruno Cavalcante
Produção: David Costa
Contrarregragem: Luccas Caetano
Cenografia: Luccas Caetano
Figurino: Venâncio Cruz e Jota Silva
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