Existem homens que a vida despedaça e homens que a vida talha. Ronaldo Campos é as duas coisas ao mesmo tempo: foi quebrado por dentro, no silêncio mais cruel que um pai pode conhecer, o de não alcançar o filho nem com os braços nem com a alma, e, do que restou desse desmoronamento, ergueu não uma reconstrução, mas uma reinvenção. Não existe adjetivo que dê conta dele. Empresário, palestrante, espírita, pai, todos esses substantivos são pequenos demais para o que ele se tornou depois que a dor bateu à sua porta e ele, em vez de fechá-la, decidiu abri-la para milhares de outros filhos que não eram seus, mas que passaram a ser.
Foi assim, tentando entender o que não se entende, que cheguei a Ronaldo Campos. E logo nos primeiros minutos de conversa, antes mesmo de qualquer pergunta formal, ele me disse a frase que carrego comigo desde então, e que resume, talvez, tudo o que este texto tentará explicar:
“Enquanto eu não consigo entrar na mente e no coração do meu filho, eu ajudo o filho dos outros. Enquanto eu estiver ajudando o filho dos outros, alguém lá em cima vai ajudar o meu”; e isso deu certo!
Não é uma frase de efeito. É uma estratégia de sobrevivência que se transformou em propósito de vida, e, no caso de Ronaldo, em oito casas, em milhares de vidas atendidas, num legado que talvez nem ele próprio saiba medir. Para entender como se chega até aqui, foi preciso perguntar a ele mesmo, com calma, do começo ao fim. É essa conversa, na íntegra, que trago a seguir.
Quem é Ronaldo Campos
Para quem ainda não te conhece: quem é Ronaldo Campos? Como você se define, além dos títulos de empresário e palestrante?
Eu me defino como um Pecador Arrependido que deseja reparar os erros do passado fazendo o bem no presente para encontrar o caminho da saúde e da felicidade no futuro.
Como resumiria, em poucas palavras, a missão que passou a carregar depois de tudo o que viveu?
Muitas vezes, a dor que nos visita é um chamado de Deus para a nossa atuação na vida. Devemos superar nossos problemas fazendo o bem, usando os dons, talentos e recursos financeiros na arte de servir com alegria.
Infância e raízes
Como foi sua infância? Que lembranças guarda desse período?
Infância boa, sem traumas, com um pai muito responsável e com uma mãe educadora com muita fé. Não éramos ricos, mas tudo vinha através dos frutos do trabalho e do estudo.
Quem eram seus pais e quais ensinamentos eles deixaram que ainda fazem parte da sua vida?
Meu pai, Octavio de Almeida Campos era farmacêutico, e minha mãe, Lenyra de Souza Meirelles Campos era professora primária por vocação. Meus pais acentuaram em mim os valores morais e éticos que eu já trazia ao renascer.
Em que ambiente você cresceu?
Cresci dentro de uma farmácia que atendia pessoas numa época em que Carapicuíba não tinha hospitais ou UBS.
Quando criança, quais eram seus maiores sonhos?
Fazer uma faculdade.
Já demonstrava o desejo de ajudar pessoas ou imaginava seguir outro caminho?
Isso sempre esteve presente na minha vida, e ficou mais forte durante o curso universitário.
Adolescência e juventude
Como foi sua adolescência?
Como um jovem que desejava muito encontrar uma namorada que pudesse complementar a sua vida, mas era um jovem tímido e muito respeitador do sexo oposto, sem muitos atrativos de beleza física ou das ousadias próprias dessa idade.
Quais eram seus objetivos de vida naquela época?
Aos 16 anos de vida, eu coloquei dois objetivos: Entrar na USP em Odontologia e ganhar um milhão de Dólares até os 30 anos…. Passei em 1º lugar na Fuvest só estudando em escola pública e atingi a meta financeira dentro do tempo estimado.
Como iniciou sua trajetória profissional como empresário?
Montando uma clínica de ortodontia de alto padrão, numa cidade de poucos recursos como Carapicuíba, no ano de 1984, usando a inspiração de Henry Ford de linha de produção.
Quais desafios enfrentou para construir sua carreira?
Falta de pessoas comprometidas em aprender e trabalhar com responsabilidade.
Em algum momento imaginou que dedicaria parte da sua vida à recuperação de dependentes químicos e à causa social?
Jamais, pois no sucesso econômico e profissional, achamos que isso irá durar para sempre, e que nada de ruim vai acontecer.
Família e a transformação da dor
Como era sua vida antes da dependência química atingir sua família?
Deus me concedeu 15 anos de felicidade familiar e prosperidade empresarial. A Bondade Divina primeiro nos envia os recursos, depois mostra a nossa missão.
Quando percebeu que seu filho enfrentava esse problema?
Quando desapareceu uma quantidade de dinheiro expressiva que estava dentro do cofre da empresa, numa sala que só três pessoas tinham a chave e só duas com acesso ao cofre.
Qual foi sua primeira reação como pai?
Eu descobri primeiro que meu filho havia tirado cópia das chaves da empresa, sabia o código do alarme do prédio e estava me furtando. A descoberta do uso de drogas veio cerca de 3 anos depois.
Qual foi o momento mais difícil dessa caminhada?
O filho sair de casa e a mãe me acusar de estar sendo duro demais e vendo coisas que não existiam, seguido da descoberta que ele estava usando droga, tinha entrado para a criminalidade e estava internado numa clínica involuntária no interior do Estado de São Paulo, internado pelo vizinho…
Houve ocasiões em que pensou em desistir?
Nunca. Faz parte da nossa missão enfrentar as adversidades como oportunidades.
O que aprendeu convivendo tão de perto com a dependência química?
Que não existe família blindada para esse problema, que a nossa sociedade está doente, que existem inúmeras famílias sofrendo e que a nossa missão é ajudar a aliviar a dor dos outros.
Como essa experiência mudou sua forma de enxergar a vida?
O caso do meu filho era muito grave, um caso quase perdido, daquele que se Deus leva embora, a solução seria boa. No final, eu entendi qual deveria ser a minha estratégia:
“Enquanto eu não consigo entrar na mente e no coração do meu filho, eu ajudo o filho dos outros. Enquanto eu estiver ajudando o filho dos outros, alguém lá em cima vai ajudar o meu”; e isso deu certo!
O nascimento da missão
Em que momento nasceu a ideia de transformar essa dor pessoal em uma casa de recuperação?
Primeiro começamos a fazer um trabalho chamado “Café da manhã sem drogas”, com moradores em situação de rua, tentando tirá-los da rua, do alcoolismo e das drogas através de palestras de segunda a sexta feira às 7 horas da manhã numa instituição religiosa no centro de Carapicuíba.
Um dia, surgiu um rapaz em situação de rua, usuário de crack, esquizofrênico, que havia levado uma paulada no rosto e parte do olho esquerdo estava para fora…com risco de perder a visão por uma grande infecção. Para ajudar o rapaz, percebemos que tínhamos que ter um local para acolher esse tipo de público.
Como foi a implantação da primeira unidade?
Convidei a minha secretária de nome Vanessa Barbosa, para a tarefa; pegamos três pessoas da rua, colocamos num espaço de 18 m2 e decidimos que iríamos aprender a lidar com essa situação.
Quais foram as maiores dificuldades no início?
A falta de apoio da minha família e a busca de conhecimento e recursos financeiros.
Houve preconceito ou resistência por parte da sociedade?
Sempre existe um pouco, pois fazemos algo que todos acham importante, mas que seja feito longe de suas residências…
Em que momento você percebeu que aquele trabalho havia se tornado uma missão de vida?
Quando um amigo empresário elogiou a obra e perguntou quem pagava a conta, e eu disse que eu pagava a conta e ele retornou com outra pergunta: e quem vai pagar a conta quando você morrer?… Aí eu fechei a minha empresa, abandonei a minha profissão no auge e me tornei voluntário em tempo integral nessa causa, 24 horas por dia, 7 dias por semana.
A primeira casa LGBT (Barueri)
Como surgiu a decisão de criar, em Barueri, uma casa específica para dependentes químicos LGBT — a primeira desse tipo?
A ideia amadureceu a partir do momento que acolhemos a nossa primeira mulher Trans, na época chamada de travesti, a Larissa Kimberly, que nos mostrou que na nossa sociedade, a pessoa mais excluída que existe é o “travesti, em situação de rua, usuário de drogas que vive na prostituição”.
Quais necessidades específicas você percebeu nesse público que não eram atendidas em outros espaços?
Por serem muito discriminados, precisavam de um local próprio, onde cada um poderia ser o que gostaria de ser, sem sofrer os preconceitos de muita gente, não precisando se prostituir para poder sobreviver.
Quais preconceitos precisou enfrentar, tanto de fora quanto dentro do próprio universo da recuperação?
Dentro da comunidade, não tivemos dificuldades; dentro da família, depois descobri que tenho duas filhas no mundo LGBT, mas parte da sociedade, ainda tem preconceitos contra esse público, principalmente algumas lideranças religiosas tradicionais que vivem em desacordo com os ensinamentos de Jesus.
Como foi a reação da sociedade e das famílias dos acolhidos?
A repercussão foi muito boa. Não tivemos dificuldades expressivas.
Qual a importância de oferecer um espaço de acolhimento que respeite a identidade de cada pessoa?
Dar um ambiente protegido para vencer as drogas e a prostituição, orientado na busca de parceiros dignos do afeto que desejam dar, vencendo a promiscuidade sexual, e trabalhando para aliviar o sofrimento de outro membro da comunidade LGBT que ainda sofre nas ruas ou até dentro de suas casas.
Crescimento do projeto
Como aquela primeira casa deu origem às demais unidades?
Aí surgiu o Ronaldo empresário novamente. Quando a primeira unidade já estava totalmente pronta, não havendo mais espaço para fazer algum novo “puxadinho”, desejando melhorar o índice de recuperação, começamos procurar espaço para uma nova unidade rural.
Dois benfeitores da Humanidade, que Deus enviou, na figura do advogado Dr. Renato Pinheiro e do Sr. Dimas de Morais viabilizaram a nossa segunda unidade.
Quantas unidades existem atualmente e em quais cidades estão localizadas?
Temos 8 unidades próprias e filantrópicas nas cidades de Osasco, Carapicuíba, Barueri, Santana de Parnaíba, São Roque e Araçoiaba da Serra.
Quantas pessoas são atendidas hoje, somando todas as unidades?
Cerca de 100 pessoas distribuídas pelas várias unidades.
Há uma estimativa de quantas pessoas já passaram pelas casas desde a fundação?
2200 pessoas foram acolhidas em internação voluntária.
Desse total, quantas conseguiram reconstruir suas vidas de forma definitiva?
As estatísticas são imprecisas, pois a dependência química é muito traiçoeira. Geralmente, quando a doença está instalada, as pessoas necessitam de 3 a 4 períodos de internação antes de vencerem definitivamente a doença. Nossos indicadores mostram excelentes resultados em 30% dos casos. Como eles voltam mais vezes, a porcentagem vai aumentando. Acreditamos que se a família fizer o que nós orientamos, o sucesso chegará a 80%. Os resultados atuais se explicam pelo fato da família não perceber que ela adoeceu também, que alimenta essa doença dando muitas facilidades e não dando perdas, o que faz com que a pessoa viva um clima de impunidade, onde pode fazer de tudo e nada vai acontecer.
Existe alguma história de recuperação que te emociona até hoje só de lembrar?
Sim, hoje o meu “braço direito” nas obras de construção e ampliação da Filhos da Luz, foi um dos maiores traficantes de drogas de Carapicuíba e uma pessoa que ficou mais de 10 anos na cadeia, é o líder de uma de nossas maiores unidades.
Administração e sustentabilidade
Como é possível manter uma estrutura tão grande, com tantas unidades funcionando ao mesmo tempo?
Precisa deixar o modelo mental de ONG para trás e pensar em termos de “Empresa Social”. Esse é o futuro da humanidade. A economia dos séculos vindouros será baseada em empresas sociais que geram resultados, onde as pessoas possam viver um grande propósito de vida e encontrar significado no estudo e no trabalho.
O trabalho é sustentado por doações, convênios, recursos próprios, ou uma combinação de fontes?
60% vêm de doações, 5% de recursos próprios e 35% de convênios, termos de fomento ou termos de colaboração.
Sua atuação como empresário e palestrante ajuda a sustentar financeiramente as casas?
Aprendi que o melhor destino dos recursos materiais é ser investido no sentido de aliviar a dor dos outros. Deixar grandes heranças para os filhos ficarem brigando depois não me parece uma boa estratégia. Quem recebeu muito da vida deve se sentir na obrigação de retribuir um pouco para as obras da caridade, para que, no outro lado da vida, tenhamos a aprovação da nossa consciência.
Quantos profissionais e voluntários participam desse trabalho hoje?
Cerca de 25 profissionais e 90 voluntários.
Quais são os maiores desafios financeiros enfrentados atualmente?
Nós cuidamos das pessoas 24 horas por dia, sábado, domingo, feriado, natal e ano novo. O nosso custo é mais elevado, pois as pessoas moram conosco. Alguém precisa pagar a conta e nós não temos o desejo de ganhar dinheiro em cima do sofrimento alheio, por isso, necessitamos sempre mobilizar os nossos amigos e simpatizantes da nossa causa.
O que nunca pode faltar para que uma casa de recuperação funcione bem?
Respeito pela dignidade alheia, compaixão por quem sofre e misericórdia por quem faz o outro sofrer.
Espiritualidade
A espiritualidade sempre esteve presente em sua vida, mesmo antes de tudo isso começar?
Sim, creio que eu me defino como um judeu que se apaixonou pelas palavras do Cristo que estão no Evangelho, explicadas pela Doutrina dos Espíritos.
Como o Espiritismo influenciou sua maneira de enfrentar a dor e de conduzir esse trabalho?
Mostrando que não existe o acaso, que a dor que nos visita é semelhante a dor que causamos a alguém ou que permitimos que alguém causasse aos outros, que os erros do passado podem estar esquecidos, mas não apagados e que no serviço ao próximo podemos reparar as faltas de antigas existências, para merecer sermos felizes, em vidas futuras, tendo muita saúde, muitos recursos e grandes amores.
A fé tem participação no processo de recuperação dos acolhidos?
Depende do tipo de fé. A fé cega nada constrói. A fé para ser verdadeira deve, no mínimo, ser acompanhada de boas obras no bem geral. A fé ajuda na recuperação quando percebemos que a bondade divina nunca abandona ninguém, que sempre há esperança e que recuperação vem junto com duas palavras: perdão e reparação. Perdoar quem me feriu, pedir perdão e reparar o mal praticado.
Como conciliar ciência, tratamento terapêutico e espiritualidade dentro das casas?
Ciência pede metodologia, pede disciplina, pede lógica e pede publicação de resultados. Espiritualidade pede ética, moral, atitudes humanas e prósperas. É ler sobre tudo e não ficar colocando todas as ações nas mãos de Deus.
Dependência química hoje
Na sua opinião, quais são as principais causas da dependência química atualmente?
Dependência química é uma condição bio, psico, social, energética, cármica, anímica e espiritual. Basta um desses pilares estar desequilibrado que o problema pode se instalar.
O uso de drogas está começando cada vez mais cedo?
Cada vez mais cedo. O jovem começa com o abuso de álcool, depois vem os cigarros comuns, depois experimenta a maconha, em seguida evolui para a cocaína e outras drogas. Os primeiros usos são juntos aos amigos da escola ou perto de parentes dentro de casa.
O vício em jogos eletrônicos e apostas pode ser tão destrutivo quanto a dependência química?
Todo vício é prejudicial. No uso de drogas, a família percebe que algo não está bem, no vício do jogo a família só descobre quando a situação está insustentável. O vício em jogos é semelhante ao vício em cocaína.
O que as famílias costumam fazer de errado ao tentar ajudar um dependente?
Tentam ajudá-lo de todas as maneiras! Esse é o grande erro! As famílias dão facilidades, passam a mão na cabeça, acham que com o tempo eles vão melhorar, acham que só orações salvam a pessoa, e não tomam nenhuma atividade mais firme.
Que orientação você daria aos pais que vivem esse drama agora?
Cortem facilidades, deem perdas, coloquem regras e perdas dentro de casa. Procurem grupos de auto ajuda e leiam o Manual da Família dos Filhos da Luz para aprenderem a nossa estratégia de “Como tirar filho da droga e marido da bebida sem gastar dinheiro”.
O tratamento e a recuperação
Como funciona o tratamento oferecido nas casas, desde a chegada do assistido até sua reinserção na sociedade?
Só acolhemos pessoas mediante internação voluntária. Na Filhos da Luz, não pode fumar, beber, usar drogas nem tomar medicação psiquiátrica. Tem que assistir aula, lavar suas roupas, limpar seu quarto, seu banheiro, aprender a fazer comida, ajudar nos trabalhos da casa. O tratamento é de 6 meses. As pessoas moram conosco durante todo esse tempo.
Quais são as etapas desse processo de recuperação?
Desintoxicação, conscientização do problema, reparação de erros.
Quanto tempo, em média, dura o tratamento? Esse período varia de caso para caso?
6 meses para tratamento e 3 meses para recaída.
Que profissionais compõem a equipe multidisciplinar — médicos, psicólogos, terapeutas, assistentes sociais, outros?
Psicólogos e assistentes sociais. Alguns médicos são voluntários, mas não para atividades médicas.
Como é a rotina diária dos acolhidos? Há atividades terapêuticas, profissionalizantes, esportivas ou espirituais?
Acordar as 6 horas, tomar café as 6:30 h, cuidados com a casa até 8 horas, espiritualidade às 3:30 h, depois duas aulas pela manhã e duas aulas na parte da tarde.
Como acontece o envolvimento da família durante o tratamento? Ela também recebe orientação e acompanhamento?
Temos um grupo de família chamado Busque Ajuda com reuniões semanais e virtuais, pois o sucesso do tratamento depende da mudança de comportamento da família frente ao problema. Só a internação raramente resolve a situação.
Após a alta, existe algum acompanhamento para ajudar o ex-assistido a permanecer longe das drogas ou dos jogos?
Temos um grupo de pós-tratamento via whatsapp e duas moradias assistidas de pós-tratamento.
Quais são os principais fatores que contribuem para uma recuperação bem-sucedida?
Espiritualidade ecumênica, conscientização e reparação de erros através do trabalho voluntário na causa da dependência química.
Quais são os maiores desafios enfrentados pelos assistidos durante o processo?
A tentação de lidar com o dinheiro vindo do trabalho remunerado e as frustrações de relacionamentos afetivos que não deram certo. Isso sem considerar os problemas espirituais que acompanham essas situações…
Para uma pessoa ou família vivendo esse drama agora, qual é o primeiro passo para buscar ajuda?
Fazer contato com a Filhos da Luz, frequentar o nosso grupo chamado Busque Ajuda e ler o nosso Manual da Família.
Histórias que marcaram
Existe alguma recuperação que jamais saiu da sua memória?
Sempre temos, principalmente aquelas que não deram certo totalmente, em que a pessoa, numa recaída, morreu por overdose ou se suicidou.
Algum ex-acolhido voltou para agradecer e te emocionou?
Temos muitos que fazem isso e essa é a razão de estarem bem, mas a maioria não retorna, o que está coerente com a realidade da vida. No Evangelho, há uma passagem onde Jesus, de uma vez só, curou 10 leprosos, e somente um voltou para agradecer e, mesmo assim, não se fez seu seguidor…
Como você lida com as perdas, quando nem todos conseguem vencer a dependência?
Aceitando o fato de que a pessoa só muda quando ela quiser, quando cansar de sofrer, quando não tiver outra opção. Então, ficamos esperando isso acontecer, o que pode ser nesta vida ou em existências futuras…
O que essas experiências te ensinaram sobre a vida?
Que viemos ao mundo para aprender tudo sobre tudo, para dominar as nossas emoções e para servirmos ao próximo com amor e alegria! Tudo que nos acontece são oportunidades que a vida nos concede.
O homem por trás da missão
Como é Ronaldo Campos quando não está trabalhando?
Se não estou trabalhando, estou estudando, lendo livros antigos esquecidos nas prateleiras de sebos e livrarias.
O que gosta de fazer nos momentos de descanso?
Planejar novas ações no bem. Descanso é para o corpo; a alma necessita de propósitos, de busca por significado. Tem gente que espera a aposentadoria apenas para descansar, deixando a oportunidade de servir ao bem para depois…
Quem é seu maior incentivador?
As palavras de Jesus que constam no Evangelho.
O que ainda sonha realizar, pessoal ou profissionalmente?
Atualmente, estou apaixonado pela loucura humana. Os transtornos psiquiátricos que são os grandes desafios atuais e futuros da medicina me atraem muito, pois enxergo soluções para esses casos, fora do modelo médico e fora do contexto religioso.
Existe algum projeto novo que deseja colocar em prática nos próximos anos?
Desejo criar uma unidade para o tratamento das Doenças da Alma, também conhecidas como doenças mentais, onde o modelo de tratamento seja o cultivo dos estados de transe, em ambiente controlados, sem uso de medicação psiquiátrica, usando sensitivos treinados para captar o subconsciente das pessoas doentes, promovendo regressões de memórias indiretas, transformando pacientes psiquiátricos em sensitivos equilibrados que irão reparar seus erros do passado aliviando a dor dos outros…
Mensagem final
Depois de transformar a dor de um pai em esperança para tantas famílias, qual mensagem você gostaria de deixar para quem está enfrentando a dependência química dentro de casa?
“Mantenha a esperança e a fé. Jesus nunca abandona ninguém. Busque Ajuda e venha nos visitar na Filhos da Luz, onde o almoço é gratuito e o estacionamento já está incluso. Muita gratidão!!!”
Por fim…
A entrevista terminou, mas Ronaldo Campos não se despediu como quem encerra uma conversa. Despediu-se como quem abre uma porta, com uma frase sobre almoço gratuito e estacionamento incluso, logo depois de falar sobre carma, reparação e o Evangelho.
Achei estranho, à primeira leitura, que um homem que fala de Cristo, de vidas passadas e de doenças da alma terminasse uma entrevista tão profunda tratando de um detalhe tão pequeno. Mas foi reparando nesse contraste que entendi a coerência secreta de tudo o que ele havia dito antes. Ronaldo Campos não separa o sagrado do prático. Para ele, salvar uma alma e oferecer um prato de comida quente são o mesmo gesto, vistos de ângulos diferentes. A grandiosidade da sua missão não está apenas nas 2.200 pessoas acolhidas desde a fundação, nem nos 30% de recuperação que ele cita com uma honestidade rara, sem inflar números para parecer mais bonito e admite que pode chegar a 80%, após inúmeras recaídas. Está no fato de que, para ele, não existe distância entre o infinito e o estacionamento.
E há ainda uma última peça que só se encaixa no fim: a mulher que primeiro abriu os olhos de Ronaldo para a urgência de uma casa LGBT não foi uma estatística nem um conceito , teve nome, Larissa Kimberly. E o homem que hoje é seu braço direito na construção e ampliação das casas foi, um dia, um dos maiores traficantes de Carapicuíba, mais de dez anos preso. O fundador de uma obra de acolhimento tem, ao seu lado, quem a sociedade descartaria primeiro. Não é força de expressão: é o resumo, em duas pessoas, de tudo o que a Filhos da Luz significa.
Se você conhece um pai ou uma mãe que hoje, agora, enquanto lê este texto, esteja se perguntando onde está o filho, saiba: existe um lugar em Barueri, em Carapicuíba, em Osasco, em Santana de Parnaíba, em São Roque, em Araçoiaba da Serra, onde um homem que já foi exatamente essa mãe ou esse pai, perdido, quebrado, sem resposta, está esperando.
Ronaldo Campos
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@Instituto.filhosdaluz
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(11) 9 7155-7215

