Uma inovação tecnológica que promete companhia, monitoramento e acolhimento a idosos também acende um alerta sobre o abandono afetivo e a solidão na terceira idade.
Imagine chegar à velhice e ter como companhia uma boneca que conversa com você, pergunta como foi seu dia, lembra a hora de tomar seus medicamentos, canta suas músicas preferidas e, todos os dias, diz: “Eu te amo”.
Parece cena de ficção científica, mas já é realidade na Coreia do Sul.
Cerca de 14.500 idosos que vivem sozinhos já contam com a companhia de bonecas equipadas com inteligência artificial, desenvolvidas pela empresa Hyodol. A iniciativa responde a um problema social crescente no país: o envelhecimento da população e o aumento de pessoas que passam os últimos anos de suas vidas sem companhia.
A tecnologia vai além de uma conversa programada. As bonecas interagem com os idosos, lembram os horários dos medicamentos, cantam, contam histórias e acompanham informações relacionadas ao sono e ao humor. Quando identificam situações que podem indicar uma emergência, emitem alertas para familiares e responsáveis pelo acompanhamento.
A fundadora da empresa, Kim Ji-hee, desenvolveu o projeto a partir de anos de pesquisas de campo e da convivência com idosos reais, buscando compreender suas necessidades emocionais e cotidianas.
Os relatos sobre os resultados chamam a atenção. Uma mulher de 78 anos, que enfrentava um quadro severo de depressão, afirmou ter desenvolvido um vínculo tão forte com a boneca que passou a preferir sua companhia à de outras pessoas.
Por trás dessa inovação existe uma realidade que merece nossa atenção: pessoas que sentem falta de alguém com quem conversar, dividir lembranças e simplesmente compartilhar o silêncio de um dia comum.
E o que essa realidade nos diz sobre o Brasil?
Embora ainda não haja informações confirmadas sobre a chegada dessa tecnologia ao mercado brasileiro, a discussão já deveria fazer parte da nossa agenda social.
O envelhecimento da população não é uma realidade distante. É um processo que acontece agora, dentro das nossas famílias, nas comunidades e nas cidades. Há idosos que vivem sozinhos, outros que, mesmo cercados de familiares, experimentam a solidão e a invisibilidade.
A inteligência artificial pode ser uma aliada importante no cuidado, no acompanhamento e na segurança dessas pessoas. Mas também precisamos ter cuidado para não confundir assistência tecnológica com presença humana.
Uma boneca pode lembrar o horário do remédio, cantar uma canção e oferecer palavras carinhosas. Mas será que pode substituir um abraço, uma visita inesperada, uma conversa acompanhada de café ou a presença de alguém que realmente se importa?
A experiência sul-coreana, que também tem planos de expansão para outros mercados, incluindo os Estados Unidos, nos coloca diante de uma reflexão que ultrapassa a tecnologia.
Estamos desenvolvendo máquinas capazes de dizer “eu te amo” todos os dias. Mas estamos encontrando tempo para dizer isso às pessoas que envelhecem ao nosso lado?
Talvez o maior alerta dessa história não esteja na capacidade das máquinas de oferecer companhia, mas na necessidade de uma sociedade que não deixe seus idosos envelhecerem na solidão.
A tecnologia pode oferecer companhia. Mas o afeto, a atenção e o compromisso com a vida de quem envelhece continuam sendo responsabilidades humanas.
redação Nossa Oeste

