Por Adriana Biazoli
Ela tinha 17 anos, uma vida inteira pela frente e sonhos como qualquer adolescente. Ana Luiza de Oliveira Neves não imaginava que o presente deixado em sua casa, um bolo de pote com um bilhete carinhoso, seria sua sentença de morte. O caso, ocorrido em Itapecerica da Serra (SP), chocou o país e escancarou uma dura realidade: o perigo real de aceitar alimentos de pessoas desconhecidas e a banalização do acesso a substâncias letais pela internet.
Um gesto de afeto que escondeu uma armadilha
O bilhete dizia: “Um mimo pra garota mais linda que já vi.” Parecia uma surpresa inocente. Mas, logo após consumir o doce, Ana Luiza passou mal. Foi levada ao hospital, medicada e liberada. No dia seguinte, seu estado piorou drasticamente. Teve uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.
Dias depois, a verdade veio à tona: o presente havia sido preparado por uma amiga da própria vítima, uma adolescente da mesma idade, motivada por ciúmes. O plano não foi impulsivo. Segundo investigações, ela adquiriu óxido de arsênico pela internet e contratou um motoboy para realizar a entrega.
Envenenamento: um crime que parece distante, mas está perto
Quando falamos em envenenamento, é comum que a imagem nos remeta a histórias antigas, romances policiais ou filmes de suspense. Mas a morte de Ana Luiza é real, recente, brasileira. E traz um alerta: os venenos estão mais próximos do que pensamos, e muitas vezes, escondem-se em gestos aparentemente gentis.
Mais chocante ainda é saber que a autora do crime comprou o veneno online, por apenas R$ 80. O acesso a substâncias como arsênico e “chumbinho” — banidas em diversos países, ainda é possível com poucos cliques. Não bastasse isso, há tutoriais e fóruns onde o envenenamento é discutido como se fosse uma receita qualquer.
A influência da mídia e o efeito contagiante dos crimes
Outro ponto importante que precisa ser discutido com responsabilidade é o papel da mídia na divulgação de crimes como este. Embora o jornalismo tenha o dever de informar, é preciso atenção para não transformar casos trágicos em “guias” inconscientes para pessoas fragilizadas ou desequilibradas.
A adolescente que confessou o crime contra Ana Luiza afirmou que não queria matar, apenas “causar sintomas”. Ainda assim, ela pesquisou como preparar a mistura e pode ter sido influenciada por casos parecidos noticiados recentemente. Isso nos leva a refletir: até onde vai a responsabilidade coletiva diante da repetição de tragédias?
O que podemos aprender com essa dor?
O luto de uma família, o arrependimento de uma jovem, a revolta de uma sociedade. O caso de Ana Luiza não deve ser apenas mais uma manchete esquecida com o tempo. Ele precisa gerar reflexão, diálogo e mudança.
Educação digital: precisamos conversar com adolescentes sobre o uso consciente da internet e o impacto das escolhas online.
Controle de substâncias: é urgente regulamentar e fiscalizar com rigor a venda de produtos tóxicos.
Prevenção e empatia: precisamos ensinar desde cedo que conflitos emocionais não se resolvem com violência, mas com escuta, apoio e cuidado psicológico.
Ana Luiza morreu envenenada por um gesto que parecia doce, mas foi construído com veneno e intenção. Sua história nos ensina que o mal pode vir disfarçado de presente e que o cuidado com o outro começa em casa, nas escolas, nas redes e nas políticas públicas.
Mais do que um caso policial, essa é uma história que grita por consciência.
Sobre a autora

Adriana Biazoli é jornalista, escritora, contadora de histórias e apaixonada pela arte de comunicar. Já atuou como radialista, apresentadora de TV e mestra de cerimônias, mas é entre crianças, festas e histórias que encontra sua verdadeira paixão. Com olhar sensível e escuta atenta, transforma encontros do cotidiano em narrativas que tocam o coração. Seu propósito é ensinar pessoas a se comunicar bem , com palavras, com presença e com afeto.
Instagram: @adriansabiazoli
Email: biazoliadriana@gmail.com