Por Adriana Biazoli
A morte de Flávia Cunha Costa, de 42 anos, por grave desnutrição em Belém (PA), não é apenas uma tragédia individual. É um alerta brutal sobre os limites entre fé e fanatismo, entre espiritualidade e controle psicológico. O caso envolvendo o casal Marleci Ferreira de Araújo e Ronnyson dos Santos Alcântara, líderes de um suposto grupo religioso, escancara os perigos da alienação psicológica praticada sob o disfarce da religião.
Flávia, foi deixada pelo casal em um pronto socorro das proximidades sem os documentos, o casal disse que se tratava de uma “vizinha”.
Segundo a Polícia Civil, Flávia vivia há mais de dez anos sob o domínio do casal, conforme o relato recebido, a mulher era obrigada a realizar trabalhos domésticos e apresentava sinais visíveis de desnutrição
Segundo depoimentos, os fiéis eram obrigados a consumir alimentos estragados, deixar de tomar banho, entregar todos os seus bens e submeter-se a humilhações públicas, tudo em nome de uma “purificação espiritual”.
Enquanto isso, nas redes sociais, Marleci se apresentava como pastora, terapeuta cristã, psicanalista, sexóloga e sensitiva espiritual — títulos sem comprovação. Usava perfis falsos para publicar versículos bíblicos e mensagens de fé, construindo a imagem de uma líder espiritual acolhedora e inspiradora. A realidade por trás das telas, porém, era marcada por coerção, privações e sofrimento.
Fé ou abuso?
As investigações indicam que outras pessoas também viviam sob o domínio do casal, totalizando ao menos 13 vítimas. Testemunhas relatam que os seguidores eram orientados a cortar laços com o mundo exterior, vender seus bens e entregar o dinheiro ao ministério. Qualquer desobediência às regras rígidas impostas por Marleci e Ronnyson era punida com privações físicas e psicológicas.
A delegada Bruna Paolucci, da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM), destacou a complexidade de se configurar o crime de violência psicológica, mas apontou que os depoimentos e os documentos apreendidos comprovam o domínio mental exercido pelo casal sobre as vítimas. O inquérito deve indiciá-los por múltiplos crimes, incluindo maus-tratos, estelionato e homicídio.
Quando a fé aprisiona
É preciso dizer com firmeza: não se trata de religião, mas de manipulação. O verdadeiro evangelho, como qualquer fé baseada no amor, na dignidade humana e na compaixão, não subjuga, não explora, não humilha. A alienação psicológica travestida de fé é uma forma silenciosa e perversa de violência, que sequestra a autonomia, o senso crítico e, muitas vezes, a própria identidade da vítima.
Há uma linha tênue, mas crucial, entre liberdade religiosa e abusos cometidos por falsos líderes espirituais. Quando o discurso espiritual serve para controlar mentes, impor privações, extorquir bens e isolar pessoas de seus vínculos familiares e sociais, estamos diante de um crime, e não de um ministério.
O silêncio cúmplice
Casos como o de Flávia não são isolados. Muitas vezes, as vítimas permanecem em silêncio, temendo represálias ou convencidas de que estão, de fato, “em missão divina”. Isso ocorre porque o abuso espiritual destrói o senso de realidade, mina a autoestima e cria uma dependência emocional com o agressor.
A sociedade, o Estado e as instituições religiosas precisam estar atentos. É urgente criar mecanismos de escuta, acolhimento e denúncia para vítimas de manipulação psicológica religiosa. E, acima de tudo, é fundamental reconhecer que espiritualidade não é sinônimo de submissão.
Em nome de Flávia
Flávia morreu com o corpo consumido pela fome e pela dor, sem admitir que estava sofrendo maus tratos, mas sua história precisa ser ouvida. Sua morte não pode ser em vão. Que sirva de alerta, de denúncia e de mobilização. Que os verdadeiros líderes espirituais, comprometidos com a vida, e não com o poder, levantem a voz contra práticas que desonram a fé e matam em nome dela.
Que Flávia tenha paz, e que a justiça venha para impedir que mais nenhuma mulher morra nas garras da alienação travestida de fé.
Com informações G1