Gê: Quando a despedida caminha em silêncio

Jandira
O carro de som do amigo Cândido tocava Estrada Nova, de Oswaldo Montenegro.
O cortejo seguia incrédulo.
Seria possível o Gê imaginar o tamanho do amor que caminhava atrás dele?
Meus textos não são jornalísticos. Nunca o serão.
Porque ali, naquele fim de tarde entristecido e melancólico, não havia notícia,  havia despedida.
A letra falava do medo de ir embora.
E ali estava indo embora o amigo querido.
Seguimos lentos, cabisbaixos, resolutos, no mesmo compasso da música.
Cada nota rasgava o ar espesso, pesado de saudade.
Os balões foram soltos, libertos.
Um deles ficou preso na árvore.
Era o nosso pedido mudo:
fique um pouco mais… só um pouquinho.
Vieram os aplausos.
Depois, o silêncio.
E ficamos parados, sem pressa de ir.
Letárgicos. Perdidos.
Filhos órfãos.
Mais uma vez, órfãos.
Cáritas e os filhos, sentados na grama, abraçados, não queriam deixar o cisco sozinho.
Ninguém queria deixar.
Porque o amor ainda precisava dizer adeus com calma.
Nos depoimentos, o Gê foi sendo revelado por inteiro.
No olhar emocionado de João Paulo Cunha, que o chamou de amigo, apareceu o homem do abraço que encurtava distâncias, que criava pontes, que juntava gente. Um coração tão generoso que, muitas vezes, escolheu a bondade acima de qualquer cálculo.
Na memória de Beto Piteri, que o conheceu desde menino, surgiu o aluno atento, o jovem respeitoso, o homem público que entendeu, na prática, a diferença entre legislar e governar , e governou cuidando de pessoas. O marido, o pai, o homem de vínculos fortes, de afeto verdadeiro, levando também o abraço da cidade de Barueri.
Na fala de Roseli Machado, reapareceu a alegria pura, o coração aberto, a presença constante. Um Gê que estendeu a mão quando foi preciso e sustentou sonhos coletivos, garantindo que a Associação Amigos da Criança existisse, resistisse e seguisse viva.
E na voz embargada do irmão mais velho, Paulo, veio a síntese mais simples e mais profunda:
no rosto e no sorriso do Gê, morava um grande coração.
Nada escondido.
Tudo verdadeiro.
Poucos meses antes, ao escrever sobre o Troféu Semear, ele me disse que leu e releu o texto como quem lê uma matéria e, pela primeira vez, sente de verdade o que aconteceu. Que a poesia fez caber a realidade.
Talvez seja isso.
Talvez a poesia seja o único jeito de dizer o que a ausência faz.
Hoje, fica a tristeza.
Fica o silêncio depois do último aplauso.
Mas fica, sobretudo, a certeza:
quem parte deixando tanto amor, tanta amizade sincera, tanta verdade,
cumpriu sua missão.
E o Gê cumpriu.
Por: Adriana Biazoli – 23/02/2026

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