Irany Jesus: quando a arte devolve cor à vida

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Irany Jesus Sousa, conhecida como Irany Jesus, nasceu em um sítio no município de Macaúbas, no interior da Bahia. A infância foi marcada por privações, mas também por lembranças que resistem ao tempo: brincar até anoitecer sem medo, a escola como refúgio, o alimento garantido e o espaço para sonhar. Em meio à dureza da vida, a arte já se fazia presente, ainda que não reconhecida como tal. Pinturas, festas juninas, quadrilhas, capoeira, cirandas, poesia e histórias contadas com paixão formavam um repertório cultural vivido no corpo e na alma.

A adolescência chegou cedo demais. Aos 13 para 14 anos, Irany precisou assumir responsabilidades de adulto após o pai sofrer um derrame. Enquanto a mãe vinha para São Paulo cuidar dele, ficou para trás cuidando da casa. Foi ali que aprendeu a sobreviver, a resistir e, sem perceber, a se fortalecer. A música e a dança, silenciosamente, já cumpriam um papel de resgate emocional.

A mudança para São Paulo, aos 17 anos, veio por amor,  hoje ela reconhece que também foi uma fuga. O início foi solitário e difícil. Trabalhou, enfrentou lutas diárias e encontrou algum alento com o nascimento da primeira filha, aos 19 anos. A maternidade transformou tudo. Vieram dois filhos e a certeza de que existe um “antes” e um “depois” deles. Conciliar a vida, a dor, o trabalho e a arte nunca foi simples, mas desistir nunca foi uma opção.

O golpe mais duro veio com a doença rara da filha: uma inflamação autoimune no cérebro. Um processo devastador, atravessado pela consciência de que nem tudo está sob controle. Ainda assim, Irany persistiu, cuidando com o maior amor que se pode oferecer. Após a perda, foi o filho, a mãe, a família, os amigos,  e a arte,  que a mantiveram de pé. “Todos os dias a arte me salva”, afirma, com a clareza de quem viveu isso na pele.

Foi em 2019, aos 34 anos, durante uma depressão profunda, que a arte deixou de ser apenas vivência e se tornou caminho consciente de cura. Por indicação de uma psicóloga, Irany chegou ao teatro. Ali, algo se reorganizou: voltou a sorrir, a enxergar cor na vida, a respirar com mais leveza. O que nasceu como cuidado pessoal se transformou em missão coletiva: compartilhar esse “milagre” com outras pessoas.

Desde então, sua atuação nas artes cênicas e na cultura da infância tem sido marcada pelo afeto, pela escuta e pelo respeito ao tempo de cada um. Trabalha com desenvolvimento psicomotor de crianças pequenas de forma lúdica, entendendo a diversão como ferramenta séria de crescimento emocional e cognitivo. Atuou em companhias de teatro, circulou por palcos e festivais com poucos recursos e muita entrega, e encontrou nas periferias da região oeste da Grande São Paulo uma troca que transforma tanto quem assiste quanto quem faz.

Irany acredita, com convicção, que a cultura salva vidas. Não como discurso, mas como experiência vivida. Para ela, levar teatro, histórias e brincadeiras a quem nunca teve acesso é plantar sementes de humanidade, pertencimento e futuro. Integrar um Ponto de Cultura em Jandira representa acolhimento e possibilidade de reconstrução coletiva.

Hoje, Irany se define com uma palavra: gratidão. Vive um dia de cada vez, compartilhando o que aprendeu com a própria história. Seu legado é simples e profundo: resiliência, persistência e a certeza de que a arte não é luxo, é cuidado, é inclusão, é vida.

Instagram: @irani1033

Email: irani.jesuus@gmail.com

Redação Nossa Oeste

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