Por Adriana Biazoli – 07/06/2026
Ontem à noite, ao deixar o teatro, eu carregava comigo as emoções provocadas pelo espetáculo. Descia pelo elevador rumo ao estacionamento quando encontrei uma senhorinha de passos lentos, olhar azul e sorriso acolhedor.
Pequena na estatura, mas enorme na capacidade de despertar afeto.
Ao lado do filho, seguiu pelo longo corredor que ligava o elevador ao estacionamento. Conversamos durante o percurso. Ela fazia perguntas, eu também. E confesso que desejei, por alguns instantes, que aquele corredor fosse um pouco maior.
Foi então que ela me contou algo que me surpreendeu.
Era sua primeira vez em um teatro.
Chegara tarde. A peça já estava quase no fim. Viu apenas uma pequena parte da apresentação. Uma espiadinha, como definiu com simplicidade.
Perguntei se havia gostado.
Os olhos brilharam.
Disse que sim.
E naquele instante me reconheci um pouco nela.
Não porque fosse minha primeira vez no teatro. Pelo contrário. Sou apaixonada pela arte cênica. Mas porque também descobri o teatro tardiamente. E sei exatamente o que acontece quando ele nos encontra. É como abrir uma porta para um mundo que sempre esteve ali, esperando apenas o momento certo para nos receber.
Ela viu apenas alguns minutos.
Mas foram suficientes para se encantar.
Foram suficientes para despertar curiosidade.
Foram suficientes para fazê-la sorrir ao falar sobre aquilo.
Antes da despedida, fiz um convite.
— Amanhã tem outra apresentação (Perdoa-me por me traíres) . Venha assistir.
Ela sorriu, olhou para o filho, claro que depende que alguém a leve.
Chegamos ao fim do corredor. Pedi licença para lhe dar um beijo no rosto. Ela riu, permitiu e ainda me presenteou com outro beijo.
Seguimos nossos caminhos.
Mas desde então uma pergunta insiste em me acompanhar.
Será que ela volta hoje?
Será que ocupar uma das cadeiras da plateia?
Será que assistiu à peça do começo ao fim?
Gosto de imaginar que sim.
Gosto de imaginar aquela senhorinha entrando no teatro com a mesma curiosidade que uma criança leva para descobrir algo novo.
Porque nunca é tarde para um primeiro espetáculo.
Nunca é tarde para se encantar.
E, às vezes, basta uma simples espiadinha para que a magia encontre seu caminho até o coração.
Hoje, como nos dias anteriores, estarei ali para acompanhar o espetáculo e colher informações para uma matéria do Nossa Oeste.
Como nos dias anteriores, vou me sentar na terceira fila, de baixo para cima, bem pertinho do palco.
Mas, antes que as luzes se apaguem e a magia comece mais uma vez, provavelmente serei a pessoa que olhará para trás algumas vezes.
Não para observar a plateia.
Mas na esperança de reencontrá-la.
Quem sabe eu veja novamente aqueles olhos azuis, o sorriso sereno e as presilhas cor-de-rosa segurando os cabelos grisalhos.
Quem sabe tenha aceitado o convite.
Quem sabe tenha voltado para viver a experiência completa.
E, se estiver lá, saberei que aquela pequena espiadinha foi suficiente para abrir as portas de um novo encantamento.
Porque alguns encontros terminam no estacionamento.
Outros continuam, silenciosamente, na esperança de um novo capítulo.

Imagem: Criada por IA
Sobre a autora:

Adriana Biazoli, é jornalista, escritora, contadora de histórias e apaixonada pela arte de comunicar. Com sensibilidade e escuta atenta, transforma encontros e vivências em narrativas que tocam o coração. Avó de três , sendo uma; criança autista, escreve para informar, acolher e inspirar.
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