Movimento Indígena Multiétnico “Nhande vae’eté”: destaca retomada de território, cultura e tradições das etnias dos Povos Originários do grande ABC

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Patrícia Martins – Jornalista, Especialista em Políticas Públicas de Violência contra a Mulher, pela PUC-Rio e Membro do Coletivo Multiétnico “Nhande vae’eté do ABC Paulista

O Dia dos Povos Indígenas é celebrado em 19 de abril no Brasil, reconhecendo a diversidade cultural e os direitos dos povos indígenas. A data foi criada em 1943, pelo presidente Getúlio Vargas, e era popularmente chamada de “Dia do Índio”. No entanto, a mudança para o nome “Dia dos Povos Indígenas”, ocorreu em 2022, por meio da Lei 14.402, com o objetivo de destacar a diversidade cultural, e evitar o uso do termo “índio”, considerado pejorativo.

Quando pensamos nos Povos Originários, precisamos incluir a presença de indígenas em contextos urbanos, presentes nas cidades e muitas vezes inclusos na massa operária como mão de obra para o trabalho. Nas últimas décadas, segundo dados do Censo Demográfico do IBGE de 2022, mais da metade da população indígena vive nas cidades, e isso se deve a precariedade de vida nas terras indígenas, a busca por melhores condições no acesso à serviços básicos, como saúde, educação e renda. Por isso, é importante destacar os movimentos e coletivos multiétnicos de indígenas urbanos, que lutam por seus direitos, com o objetivo de retirar as marcas de sua invisibilidade e destacar a retomada de seu território, cultura e tradições.

Nhande vae’eté ABC, os “Povos originários do ABC”, são ativos e migrantes de outros estados que assumiram uma identidade multiétnica, com o objetivo de acolher todos que buscavam conhecer e se aproximar de suas raízes indígenas na região. Anterior a esse movimento estão vozes como as de Barbara Pankararu, Chirley Pankará, Giovani Paiva e Marcos Aguiar, que já traziam essa temática dos Povos Indígenas residentes em contexto urbano para os debates públicos na região desde os anos 2000.

Em 2020, com a retomada do Povo Guayana-Muiramomi, originário nativo do território do ABC, descendentes do Cacique Tibiriça e Piqueroby, o movimento ganhou um novo fôlego. A partir deste contexto várias manifestações e protestos foram sendo organizadas pelo movimento, com a presença dos Pankararu, dos Guarani e dos Guayana-Muiramomi e a adesão e apoio de movimentos sociais da região.  Recentemente, com a crise no território Yanomami e o avanço da violência do garimpo ilegal sobre as mulheres indígenas, um pequeno grupo se reuniu e realizou um protesto na Avenida Paulista, em apoio a luta das mulheres Yanomamis e seu território.

“Neste sentido, surgiu a necessidade de nos organizarmos coletivamente para lutarmos pelos direitos dos Povos Indígenas em território, mas também em contexto urbano.  Nesse momento eu estava tendo aula de tupi antigo com um professor nativo e ele me ensinou o significado de Nhande Va’eté – Nhande é gentes/povo, Ava é humano, eté é verdadeiro – ou seja, Povos originários, eu sugeri ao coletivo que naquele momento contava com cerca de cinco ou seis pessoas, e foi prontamente aceito”, revela Silvia Muiramomi, liderança do povo Guayaná-Muiramomi, socióloga, ativista e cofundadora do Movimento Multiétnico Nhande vae’eté ABC e conselheira eleita do COMPIR 2023-2025 (Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial) de Santo André.

O Censo Demográfico do IBGE de 2022, revelou que 53,97% da população indígena do Brasil vive em áreas urbanas, um aumento significativo em relação aos 36,22% registrado em 2010. No estado de São Paulo, a capital concentra o maior número de etnias, com 194 etnias registradas, seguida por Campinas, que abriga 96 etnias. Essa mudança reflete não apenas um crescimento populacional, mas também ajustes metodológicos que melhoraram a captação da população indígena nas estatísticas oficiais. Neste Censo de 2022, constatou-se que existem cerca de 3040 pessoas indígenas autodeclaradas, residindo em contexto urbano, nas sete cidades que compõem a região do ABC Paulista (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) – e que que pertencem a cerca de dezesseis a vinte etnias diferentes, que se autodeclararam indígenas, praticamente uma grande aldeia urbana.

O Nhande Va’eté ABC trabalha no fortalecimento das identidades étnicas e no diálogo com as instituições governamentais dos sete municípios, e para isso vai empoderando as lideranças locais: Silvia M. Muiramomi – liderança de Santo André e Coordenadora Regional, Maura Akã Mbareté – liderança de Mauá, Valderez Coimbra – liderança de Ribeirão Pires, Elvis Tupi Guarani – liderança de Rio Grande da Serra, Mônica Rodrigues – liderança de Diadema, Renato Werá – liderança de São Bernardo do Campo e Patrícia Martins (bisneta de payayá), liderança em Jandira. Cada liderança tem autonomia local e territorial para articular manifestações, diálogos e empreender ações que fortaleçam a presença indígena nos municípios e a luta pelos direitos dos Povos indígenas em contexto urbano e ainda fortalecer as ações dos Povos indígenas das quatro aldeias de São Bernardo do Campo, com apoio operacional e financeiro, em demandas pontuais quando solicitadas por eles.

Atualmente o Coletivo Nhande va’eté ABC é uma referência nos municípios em que atua. Além da participação em Conferências de Cultura, Meio ambiente, Igualdade Racial, Educação entre outras, também já realizaram a formação de cerca de 500 educadores e professores e vivências nas escolas. Atenderam em 2024/2025, mais de 1000 crianças e adolescentes, levando a história e cultura do Povo nativo do território, os Guayana-Muiramomi, e a história dos povos migrantes de outros estados que estão aqui na região.  Isso tem quebrado velhos paradigmas como a ideia de extinção dos Povos, ou o estereótipo do indígena e pré-conceitos arraigados do inconsciente coletivo sobre nossas culturas e bem viver.

“Em 2024, junto com outros movimentos e com o apoio do Ministério Público Federal, conseguimos estabelecer uma agenda de saúde especializada, para populações indígenas nos sete municípios, sendo Santo André o primeiro município a oferecer um ambulatório especializado em Saúde Indígena, na UBS Cidade São Jorge, seguido em 2025 pelo município de São Bernardo, pela atuação da liderança Kilvane Pankararu”, destaca Silvia M. Muiramomi.

Para Muiramomi, liderança de Santo André é importante destacar que, em 2025, em parceria com o coletivo do Povo Guayana-Muiramomi, conseguimos o 1° Centro de Saberes e Memórias Indígenas em Mauá/SP, onde receberam um imóvel que abriga exposições temáticas sobre culturas, direitos, tradições dos povos indígenas, além de oficinas de grafismo, cerâmica, música e artesanato nativo. Esse local fica no Parque da Gruta do Tamanduateí, lugar sagrado para o povo Guayana-Muiramomi, por abrigar a nascente do rio Tamanduateí, berço do nosso povo e uma Mata Atlântica nativa, fauna e flora local.  Essa concessão foi concedida, pelo prefeito Marcelo de Oliveira, em parceria com a Secretaria do Meio Ambiente, para levarmos as culturas e tradições indígenas em atendimento a Lei 11645/2008, e recebe a cada exposição cerca de 150 a 250 pessoas, além de escolas municipais em agenda da Educação ambiental do município. No ano de 2026 recebemos da Secretaria de Soberania Alimentar de Mauá, um espaço de Horta Comunitária de Saberes Ancestrais, onde podemos levar plantas nativas do nosso bioma para cultivar com alimentação e medicina tradicional.

“Quando pensamos num momento de reparação histórica, percebemos que o Grande ABC, infelizmente não conhece a sua história ancestral, que as crianças saem da escola sem conhecer o Cacique Tibiriça e sua filha Bartira, que desconhecem nossa agrofloresta de Araucária, plantada há mais de 4000 mil anos, pelos nossos ancestrais, desconhecem o trabalho indígena que ajudou a edificar a região metropolitana de São Paulo e apaga nossa memória de Povo nativo da história.  Isso aprofunda o racismo estrutural que afeta toda a sociedade diariamente e torna a luta de outros povos como os Yanomamis, os Pataxós, os Mundurukus nos territórios uma coisa distante e incompreensível, para os habitantes do Grande ABC”, reafirma Silvia M. Muiramomi.

É importante salientar, que além do movimento do Coletivo Nhande Ca’eté ABC, é necessário maior empenho e vontade política, para tornar efetiva a Lei 11645/2008 – legislação que torna obrigatório o Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena, nas escolas municipais e estaduais, criando um lugar seguro para que as crianças e os adolescentes possam despertar o interesse nesses povos, e resgatarem suas ancestralidades étnicas. Neste sentido, é uma forma de incentivar as famílias a se autodeclarar, essa é única forma de alcançar os direitos constitucionais garantidos. É necessário também que instituições de Saúde e de Educação, do município em parceria com a Secretaria de Assistência Social, identifiquem essas famílias e promovam seu cadastro no CAD ÚNICO facilitando o acesso a esses direitos.

“Sentimos a necessidade de lugares de reunião e prática de nossos saberes, onde poderemos reaprender a língua e as práticas de nossos povos ancestrais, bem como, um lugar onde nossas filhas e netas possam aprender com suas avós e mães, como nossas ancestrais – o bem viver”, revela Muiramomi.

Quando pensamos em Povos Originários, é importante destacar que cada povo, de uma região se organizam de uma forma – em torno de seus Mestres de Saberes, porém de forma generalizada: os Guarani Mbya da Tenonde Porã são grandes portais de inspiração, espiritual, social e coletiva, nas artes, música e bem viver e o contato com eles desperta em cada indígena em contexto urbano sua dimensão espiritual e ancestral.

Daniel Munduruku, Ailton Krenak, Sonia Guajajara são exemplos de destaque na Literatura e na política que inspiram nossas lutas. Pajé Auadju Pitotó, do território de Piaçaguera também fortalece os povos originários, com suas rezas, cantos e sabedoria. No entanto, para Muiramomi, a região ainda está fomentando sua identidade cultural por meio de editais da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e da Lei Paulo Gustavo, e em breve teremos expoentes locais que devem inspirar as próximas gerações.

Estamos muito longe de uma reparação histórica dos Povos Originários, no entanto, existe a necessidade urgente de Políticas Públicas, para que cada município reconheça prioritariamente sua história e raiz ancestral indígena. Destacando assim, as contribuições que cada um dos povos nativos da região, tais como: os Guayanas, os Tupiniquins, os Muiramomis, os Guaranis e os Tupinambás deram para a construção desse território e de cada município.  Sem reconhecer a própria história indígena, é impossível respeitar a diversidade dos outros povos que aqui chegaram e residem.  Já que nos diz respeito aos aldeados, grande missão é tornar as relações com a população, menos hostis, em relação a presença de pessoas indígenas. Com isso, podemos desmistificar e compreender suas culturas e tradições e promover diálogos de paz com toda sociedade.

*Patrícia Martins é Jornalista, Especialista em Políticas Públicas de Violência contra a Mulher pela PUC-Rio e Membro do Coletivo Multiétnico “Nhande vae’eté do ABC Paulista

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