A maioria dos artistas aprende a arte. Alguns, raros, parecem ter nascido dentro dela. A diferença não está no que executam, mas no que carregam, uma inquietação permanente, um olhar que transforma o ordinário em matéria-prima antes mesmo de chegar ao palco.
Conheci Raissa pessoalmente e, desde então, não consigo parar de me surpreender. Com ela, criatividade não é dom, é disciplina. Sensibilidade não é fraqueza, é combustível. E arte não é escolha, é sobrevivência.
Mas antes de falar sobre a artista, é preciso conhecer a pessoa. E é aí que a história fica ainda mais interessante.
Nesta entrevista exclusiva à jornalista Adriana Biazoli, Raissa abre a porta dos bastidores da sua vida com uma honestidade que raramente se vê. Fala da infância marcada por mudanças e solidão. Do bullying que deixou marcas que carrega até hoje. Dos momentos em que quis desistir, não da arte, mas de algo muito maior. E de como, mesmo assim, continuou.
Se você acha que conhece Raissa Matos pelo que já viu nos palcos, prepare-se para descobrir que a história mais bonita ainda não foi encenada.

Entrevista | Raissa Matos – A pessoa por trás da artista
- Antes da artista, quem era a menina? Como você se descreve quando lembra da sua infância?
Raissa Matos:
Não acho que exista um “antes”. Desde pequena sempre gostei muito de inventar personagens para as coisas. Como mudei de cidade muito novinha e fui morar em um lugar onde não conhecia ninguém, tive que ser criativa desde cedo para me entreter. Criava vozes para os objetos e os manipulava como se fossem meus amigos de brincadeira.
- Quem são seus pais? O que você herdou de cada um deles que ainda carrega na vida e na profissão?
Raissa Matos:
Eu gostaria de ter herdado mais coisas da minha mãe, que é artesã e tem muita experiência com criação manual. Mas ela me colocou em aulas de pintura em tela quando eu tinha uns sete anos e acredito que isso já me ajudou a ampliar meu olhar para a arte.
Meu pai já é o homem dos negócios e isso, com certeza, reflete em todos os filhos. O fato de eu sempre ter trabalhado de forma autônoma e ser minha própria chefe em tudo o que faço é graças a ele.
- Qual é a lembrança mais feliz da sua infância? Existe alguma memória que ainda emociona você?
Raissa Matos:
Tenho poucas memórias felizes, seja da infância ou de qualquer outra época. Quando penso em momentos felizes, realmente preciso me esforçar um pouco e, normalmente, vêm à mente lembranças mais recentes.
Sempre brinquei na terapia que meu cérebro segue uma lógica contrária. Enquanto dizem que o normal é esquecer os momentos difíceis como forma de proteção, eu acabo guardando justamente essas lembranças com mais facilidade.
- Houve alguma dificuldade, perda ou desafio que ajudou a moldar quem você é hoje?
Raissa Matos:
Absolutamente todos os momentos. Desde a infância acredito que passei por muita coisa. Quando mudei de cidade, aos cinco anos, não conhecia ninguém e tive muita dificuldade para fazer amizades. Isso reflete até hoje em mim, porque dificilmente consigo manter uma amizade por muito tempo.
Sofri bullying muito nova por causa do meu peso, assim que entrei na escola, o que fez com que eu desenvolvesse distúrbios alimentares cujas consequências enfrento até hoje. Além das questões relacionadas a uma relação familiar distante, foram muitos desafios. E continuam sendo (risos).
- Em que momento a arte entrou na sua vida? Você se lembra da primeira vez em que sentiu que aquele era o seu lugar?
Raissa Matos:
A arte entrou na minha vida desde cedo, mas foi entre 2008 e 2010 que a paixão começou a crescer, quando iniciei as aulas de dança.
Em 2014 percebi que não tinha mais volta. Eu já estava completamente envolvida e tudo aconteceu muito rápido. Entrei em dois grupos, comecei a dar aulas e, em poucos meses, já participava de muitos projetos.
- Quem percebeu primeiro sua capacidade artística: você, sua família ou alguém de fora?
Raissa Matos:
Não sei se acredito em talento. Eu acredito na minha capacidade de estudar muito e correr atrás de ser quem eu queria ser.
Eu ia para a primeira aula de dança às oito da manhã e ficava o dia inteiro, de uma aula para outra, até às dez da noite. E, quando ainda sobrava energia, fazia treinos de butô com meu professor até de madrugada.
Toda aquela energia foi convertida em estudo. Então, quando alguém me diz que sou talentosa, penso que, na verdade, eu apenas me esforcei muito.
- Como foi subir ao palco pela primeira vez? O que passou pela sua cabeça naquele instante?
Raissa Matos:
Nas primeiras vezes em que subi ao palco foi para dançar e não lembro de ter ficado nervosa.
Minha maior ansiedade aconteceu quando estreei um musical, em 2015. Sempre tive vergonha da minha voz, então falar em público e cantar foi um grande desafio.
- Quando você descobriu que a dança deixaria de ser apenas um hobby para se tornar uma escolha de vida?
Raissa Matos:
Entre 2014 e 2015, quando entrei em um grupo de dança de rua e logo me tornei uma das coreógrafas. Passamos a competir em festivais e, dali em diante, eu soube que queria viver disso.
- A dança fala sem palavras. O que ela diz sobre você?
Raissa Matos:
Tudo.
A dança sou eu. Não vejo divisão entre meu corpo e o movimento.
- Depois vieram o teatro, a atuação, a coreografia e a moda. Como essas diferentes linguagens artísticas se encontraram dentro de você?
Raissa Matos:
No fundo, acho que tudo se mistura, porque são várias facetas de mim mesma que posso explorar em contextos diferentes.
É tudo sobre colocar o corpo como instrumento de algo além.
- Entre dançar, atuar, coreografar e dirigir, existe uma paixão maior ou cada uma ocupa um espaço diferente no seu coração?
Raissa Matos:
A direção cênica definitivamente é minha maior paixão. Poder dirigir um grupo e colocar minha visão de mundo em algo que outras pessoas vão absorver e levar para si é o que mais me satisfaz.
Acho que é onde consigo brilhar mais. E volto a falar do meu pai, que sempre me incentivou a não ter chefes e a liderar aquilo que proponho. Dirigir não é apenas criar, mas também gerenciar pessoas que são seres humanos, com suas fragilidades individuais. Poder ocupar essa posição tão ampla é muito gratificante, por mais desafiadora que seja.
- Como é o seu processo de criação? Onde nascem suas ideias?
Raissa Matos:
Minhas ideias podem nascer de qualquer lugar: de um sonho, de um banho demorado, de uma frase de música ou de um quadro que vejo.
Sou pisciana e, quando era mais nova, achava que era sensível demais. Hoje percebo que essa sensibilidade me ajuda a ser extremamente criativa. Minha cabeça não para em nenhum momento, porque tudo me estimula e me inspira. Até a voz do vendedor de balas no trem em que estou agora já me inspira a desenvolver um personagem.
- Quem são as pessoas ou artistas que mais inspiraram sua caminhada?
Raissa Matos:
Pina Bausch é minha inspiração máxima. Sempre que penso em “quem eu quero ser quando crescer”, penso nela, que foi coreógrafa e diretora e inspirou tantos grupos de dança e teatro que surgiram depois.
Além dela, todos os professores e mestres que tive ao longo da minha vida contribuíram para a artista que sou hoje.
- Nem tudo são aplausos. Quais foram os momentos em que você pensou em desistir?
Raissa Matos:
Eu nunca pensei em desistir da arte, mesmo quando tudo estava por um fio.
Já pensei em desistir da vida em alguns momentos, mas o acolhimento do meu companheiro tem me mantido viva até aqui.
- O que fez você continuar quando tudo parecia difícil?
Raissa Matos:
Tive a sorte de me apaixonar pelo meu melhor amigo. Nos momentos em que quis jogar a toalha, ele esteve ali, juntando toda a bagunça para mim e me ajudando a permanecer firme.
- Você já conquistou importantes projetos culturais. Qual dessas conquistas teve um significado especial e por quê?
Raissa Matos:
Ter sido convidada para performar na Bienal de Artes de São Paulo é um dos meus maiores orgulhos. É o maior evento de arte contemporânea da América Latina, e eu pude estar ali me expressando para centenas de pessoas.
Outro projeto muito especial foi o Poéticas da Dança, que se tornou extremamente sensível e pessoal. Ouvir dos alunos que as aulas transformaram suas vidas como pessoas me enche de orgulho e gratidão.
- Existe algum espetáculo, personagem ou coreografia que transformou sua vida?
Raissa Matos:
Em 2017 participei de um espetáculo chamado DESenCARNE, que começou como uma série de performances de rua até se transformar em uma estrutura narrativa.
A obra falava sobre morte, ritos de passagem e processos de decomposição. Naquela época eu vivia o auge da depressão, e lidar diariamente com esse tema certamente me afetou durante meses.
Além disso, não éramos personagens. Éramos nós mesmos experimentando tudo em tempo real diante do público. Trabalhar com ossos de animais e carnes em decomposição tornava a experiência ainda mais intensa por causa da dimensão sensorial do espetáculo.
- O público costuma enxergar apenas o brilho dos palcos. O que quase ninguém sabe sobre você?
Raissa Matos:
Fora dos palcos, sou uma pessoa que não gosta de chamar atenção.
Estar em evidência no trabalho exige muita energia. Por isso, quando não estou trabalhando, sinto uma necessidade muito grande de não ser vista para conseguir me recarregar.
- Como você lida com a cobrança pela perfeição e pelas expectativas que recaem sobre quem vive da arte?
Raissa Matos:
Nunca tive cobrança pela perfeição, nem na arte, nem na vida.
Minhas cobranças sempre foram sobre dar conta de tudo, independentemente do resultado.
- O que significa beleza para você? Ela ajuda, atrapalha ou simplesmente faz parte da sua história?
Raissa Matos:
Beleza é algo completamente subjetivo.
Como performer e dançarina de butô, sempre busquei investigar formas de romper com o padrão de beleza que as pessoas esperam encontrar.
Para mim, a beleza está no sensível, naquilo que toca e atravessa. Beleza não é algo que se vê apenas com os olhos.
- Como você se prepara física e emocionalmente antes de entrar em cena?
Raissa Matos:
Treino flexibilidade, improviso e yoga com certa frequência. Isso me ajuda a manter o corpo disponível.
Emocionalmente preparada eu nunca estou, mas cada processo exige algo diferente e tento me manter disponível para o que a obra pede de mim.
- O que a arte ensinou a você sobre disciplina, respeito e persistência?
Raissa Matos:
Como professora e diretora, aprendi muito sobre respeito e cuidado com o outro, seja com o elenco ou com o público que vai presenciar algo que é resultado de uma ideia.
Estar nessa posição também me ensinou muito sobre disciplina e persistência, porque é preciso aprender a lidar com imprevistos e com as vulnerabilidades das pessoas o tempo todo.
- Fora dos palcos, quem é você? O que gosta de fazer quando ninguém está olhando?
Raissa Matos:
Fora do trabalho, sou a pessoa que não quer ser vista (risos).
Quero ficar com meus gatos, fazer yoga, passar tempo com meu esposo e simplesmente não pensar em nada.
- Existe algum sonho que ainda parece distante, mas continua vivo dentro de você?
Raissa Matos:
Quero me desenvolver ainda mais como diretora e coreógrafa e descobrir minha própria assinatura artística.
Sinto que estou chegando cada vez mais perto, mas desejo unir todas as artes que estudei e ser reconhecida pelo meu trabalho como diretora.
- Qual é a maior missão que você acredita ter como artista?
Raissa Matos:
Acredito que a missão de todo artista é provocar e afetar.
Em cada trabalho apresento um discurso diferente. Se eu conseguir alcançar pelo menos uma pessoa, já me sinto satisfeita.
No momento, estou dirigindo três trabalhos completamente distintos. Um deles é voltado ao público infantil e aborda sustentabilidade e as responsabilidades que temos enquanto sociedade consumista. Acredito que seja um trabalho muito potente e que as crianças aprenderão algo importante com ele.
Também estou dirigindo uma peça sobre mães solo e mães atípicas. É a primeira vez que dirijo uma obra completamente dramática e com tanto peso dramatúrgico. Tenho certeza de que quem assistir sairá refletindo profundamente sobre esse tema.
- Se pudesse agradecer a alguém que foi decisivo na sua caminhada, quem seria e o que diria?
Raissa Matos:
Gostaria de agradecer a todos os meus mestres, principalmente aqueles que me incentivaram a seguir o caminho da liderança.
Lembro que, quando estava me formando em Direção, um dos formadores me disse: “Tenho certeza de que ainda veremos muitos trabalhos dirigidos por você.”
Essa frase me faz querer confiar mais no meu próprio potencial.
- O que você espera que as pessoas sintam depois de assistir a uma apresentação sua?
Raissa Matos:
Cada trabalho desperta um sentimento diferente.
Na peça que estou dirigindo atualmente, gostaria muito que as pessoas refletissem sobre o preconceito enfrentado por adolescentes neurodivergentes e sobre a falta de acolhimento que muitas mães desses jovens recebem.
Não tenho dúvidas de que isso vai acontecer.
- Se encontrasse aquela criança do começo da história, que sonhava sem saber o futuro, o que diria para ela hoje?
Raissa Matos:
Eu diria: “Você vai viver mais do que imagina, e as coisas vão ficar mais prazerosas.”
Só o fato de eu estar aqui, aos 30 anos, fazendo planos para o futuro, já significa que superei a expectativa de vida que minha versão criança imaginava ter.
- Quando sua história for contada daqui a muitos anos, como você gostaria de ser lembrada?
Raissa Matos:
Como alguém que, mesmo tendo muitos motivos para parar, continuou.
E não digo isso romantizando a arte ou acreditando que o amor por ela seja suficiente para permanecer. Foi uma questão de sobrevivência.
Se eu não tivesse encontrado a arte, definitivamente não estaria mais aqui.
- Para terminar: quem é a pessoa que existe por trás dos aplausos?
Raissa Matos:
Só uma pessoa que quer se comunicar com as pessoas de forma sensível.

Raissa Matos não veio dos holofotes. Veio da solidão de uma criança que precisou inventar companhia. Da dor silenciosa de quem quase não chegou até aqui. Da teimosia de alguém que, em vez de parar, escolheu, todos os dias, transformar o que doía em algo que o mundo pudesse ver e sentir.
Ao longo desta conversa, ela foi generosa de uma forma que poucos artistas são: mostrou as costuras, não apenas o bordado. Falou de bullying, de distúrbios alimentares, de momentos em que pensar no futuro parecia um exercício impossível. E falou de amor, o amor que chegou na forma de um companheiro que juntou os pedaços quando ela mesma não conseguia.
O que fica depois de tudo isso não é apenas o retrato de uma carreira construída com estudo e persistência. É o convite para enxergar que, por trás de cada performance, de cada coreografia, de cada espetáculo que provoca e afeta, existe uma pessoa que escolheu usar a arte para permanecer.
E que, aos 30 anos, ainda tem muito para dizer.
Imagens: Rede Social do artista/ fotos cedidas
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Entrevista: Adriana Biazoli
Jornalista | Editora-chefe do Jornal Digital Nossa Oeste

