Super El Niño: o fenômeno climático que coloca o planeta em alerta

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O que é o El Niño?

El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. O nome, em espanhol, significa “o menino” — uma referência ao Menino Jesus, pois os pescadores peruanos observavam que, nas proximidades do Natal, as águas mais quentes reduziam drasticamente a quantidade de peixes disponíveis na região.

O fenômeno integra um ciclo maior chamado ENSO (El Niño-Oscilação Sul), que alterna entre as fases quente (El Niño) e fria (La Niña). Sua ocorrência é irregular: em média, um novo episódio se desenvolve a cada dois a sete anos, geralmente começando entre julho e agosto, atingindo o pico entre dezembro e fevereiro, e se dissipando em meados do ano seguinte.

Quando El Niño vira “Super”?

A diferença entre um El Niño comum e um Super El Niño está na intensidade do aquecimento das águas do Pacífico. Cientistas utilizam índices específicos para classificar os episódios. Um estudo publicado em 2024 por pesquisadores da Universidade Soongsil (Coreia do Sul) propôs o Super El Niño Index (SEI): quando esse índice supera o valor 80, o episódio é classificado como “super”. Segundo essa metodologia, os eventos de 1982–83, 1997–98 e 2015–16 se enquadram nessa categoria.

O Super El Niño de 1997–98 ficou marcado na história como um dos mais destrutivos: causou secas severas na Ásia e na Austrália, enchentes devastadoras na América do Sul e incêndios florestais em escala continental. Seu legado moldou décadas de pesquisa sobre previsão e adaptação climática.

O episódio de 2023–2024

O El Niño que se desenvolveu entre 2023 e 2024 foi classificado pelos organismos meteorológicos como “forte” — não chegou ao patamar de “super”, mas seus efeitos foram notáveis. O episódio contribuiu diretamente para que 2023 e 2024 fossem registrados, respectivamente, como o segundo e o primeiro anos mais quentes da história recente da Terra.

No Brasil, o fenômeno se manifestou de forma intensa: mais de 4.700 municípios — mais de 80% do total do país — registraram algum grau de estiagem, configurando a maior seca recente em extensão territorial. Na contramão, o Sul enfrentou chuvas acima da média, com destaque para as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em maio de 2024, que ocorreram mesmo quando o fenômeno já estava em fase de enfraquecimento — evidência de que a intensidade não é o único fator determinante dos impactos.

O alerta para 2026: um novo Super El Niño?

Em maio de 2026, organismos meteorológicos internacionais e brasileiros acenderam um sinal de alerta. Segundo projeções da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), as chances de formação de um novo El Niño em 2026 já ultrapassam 90%. Mais preocupante: os modelos climáticos indicam cerca de 50% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade forte ou muito forte — o que o colocaria na categoria de Super El Niño.

Especialistas avaliam que o episódio em formação pode até superar o histórico Super El Niño de 1997–98, considerado um dos mais intensos já registrados. O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) emitiu alertas formais ao governo federal sobre os riscos para o segundo semestre de 2026.

Por que o planeta está mais vulnerável?

A preocupação atual vai além da intensidade do fenômeno em si. As mudanças climáticas provocadas pela ação humana estão amplificando os efeitos naturais do El Niño de maneiras que os modelos anteriores não conseguiam capturar completamente.

O aumento das temperaturas globais favorece eventos meteorológicos mais extremos e amplia os impactos sobre diferentes regiões. Florestas degradadas perdem a capacidade de regular temperatura, reter umidade e influenciar a formação de chuvas — exatamente quando essa resiliência seria mais necessária. Em anos de seca severa, uma floresta conservada funciona como proteção climática; quando degradada, torna-se combustível para incêndios.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) alerta que eventos como o El Niño tendem a elevar a temperatura média global e estão associados a uma maior frequência de situações extremas — secas, enchentes e ondas de calor que se sobrepõem a um planeta já sobreaquecido.

Impactos esperados no Brasil

O padrão histórico de atuação do El Niño sobre o território brasileiro é bem conhecido:

Regiões Norte e Nordeste tendem a enfrentar secas severas, com redução das chuvas na Amazônia e no Semiárido. A combinação de El Niño forte com desmatamento eleva drasticamente o risco de incêndios florestais.

Regiões Sul e Sudeste recebem volumes de chuva acima da média, aumentando a probabilidade de enchentes, deslizamentos e inundações em áreas urbanas e rurais.

A pesquisadora Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), chama atenção para a complexidade do sistema climático: outros fatores oceânicos — como as condições dos oceanos Atlântico Sul e Atlântico Norte — podem reforçar ou reduzir os impactos do El Niño, e os piores eventos não ocorrem necessariamente no pico do fenômeno, mas muitas vezes no período de dissipação.

O que se pode fazer?

Diante desse cenário, especialistas enfatizam que a preparação é a melhor resposta. Isso envolve:

  • Sistemas de alerta precoce eficientes, capazes de comunicar riscos com antecedência suficiente para que populações vulneráveis se protejam.
  • Proteção e recuperação de ecossistemas, especialmente florestas e áreas úmidas, que funcionam como amortecedores naturais dos extremos climáticos.
  • Planejamento urbano e agrícola que leve em conta a sazonalidade e os padrões históricos de cada fenômeno.
  • Integração entre ciência e políticas públicas, para que as projeções climáticas se traduzam em ações concretas de prevenção e resposta.

Conclusão

O Super El Niño não é uma novidade — o fenômeno existe há milênios e faz parte do ritmo natural do planeta. O que mudou é o contexto em que ele ocorre: um mundo mais quente, com ecossistemas mais fragilizados e populações mais expostas. A possibilidade de um Super El Niño em 2026 é, portanto, não apenas uma notícia meteorológica, mas um teste da capacidade humana de antecipar, adaptar-se e proteger as pessoas mais vulneráveis diante dos extremos que o clima reserva.


Fontes: NOAA, INPO – Instituto de Pesquisas Oceânicas, CNN Brasil, O Tempo, Cemaden, Instituto Humanitas Unisinos, Conexão Planeta.

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