Ator, músico e compositor de Jandira, Andreony Sebastião da Silva compartilha sua trajetória marcada pela inquietação criativa, pelos desafios da formação e pela necessidade de existir através da arte.
Alguns artistas que escolhem a arte, outros tantos, são atravessados por ela.
Não como uma decisão planejada, mas como uma inquietação constante, uma necessidade de criar, Andreony menciona; (… é como uma coceira, que precisa ser coçada… ) há essa necessidade de provocar, de existir através do que sente.
Em meio às ruas de Jandira, entre vivências simples e profundas, nasce um artista despretensioso, dedicado e perfeccionista, alguém que transita entre a música, o teatro, a escrita e a performance com naturalidade. Não pela busca de reconhecimento, mas pela urgência de expressão.
Nesta conversa, Andreony Sebastião da Silva compartilha sua trajetória com honestidade, revelando não apenas caminhos, mas também dúvidas, desafios e a força silenciosa que o mantém criando.
Esta entrevista preserva, de forma fiel, a voz do artista. Mais do que respostas, o que se revela aqui são pensamentos, inquietações e caminhos construídos com verdade, sem excessos de edição, sem moldes, sem filtros desnecessários. Porque, às vezes, o papel do jornalismo não é lapidar… é permitir que o outro exista.

ENTREVISTA
Origens e infância
Onde você nasceu e como foi sua infância?
Nasci em Osasco, vivi o primeiro ano de minha vida em São Paulo e depois fui pra Jandira, Ouro Verde, onde moro até hoje. Minha infância foi normal, com altos e baixos, brincava pouco na rua, mas estimulei bastante a criatividade em casa.
Como você descreveria o ambiente familiar em que cresceu?
Meu pai era ausente então praticamente fui criado por minha mãe. Como meus pais não se amavam, fui crescendo nesse ambiente de instabilidade. Mas foi tranquilo até.
Existe alguma lembrança que já apontava para o caminho artístico?
Sempre fui “o diferente” néh… Gostava de ouvir música instrumental, no rádio, de coisas diferentes. Não tenho nada específico, mas quando meu irmão mais velho começou a tocar teclado fiquei com vontade de tocar algo também.
Descoberta da arte
Em que momento a arte entrou na sua vida?
Aos 13 quando fiz aula de violão na prefeitura de Jandira. Pouco tempo depois fiz teatro, mas por pouco tempo.
Qual foi sua primeira experiência artística?
Acredito que seja com a banda de rock que formei na escola, com 13 anos. Também na escola fazíamos umas peças de teatro.
Houve alguém que despertou esse interesse?
Acredito que não. Foi um processo natural, quando dei por mim estava compondo, escrevendo. Sempre fui ligado à criação.
Formação e trajetória
Quando você percebeu que queria seguir esse caminho com mais seriedade?
Acredito que ao me profissionalizar no teatro, nunca pensei em fazer sucesso ou ser conhecido na arte. Então sempre levei a sério, mas não de forma corporativa, mas no sentido de ser perfeccionista.
Como foi sua formação artística?
Só fui ter contato mais sério, estudando mesmo, em 2014, já com 26 anos. O impacto foi imenso, primeiro de saber o quão árduo é a profissão e os processos e segundo pelo conhecimento adquirido. Me tornei um artista melhor e mais completo em todos os níveis.
Quais foram os maiores desafios?
Minha formação foi desafiadora por vários motivos: distância, tempo, diferenças entre as pessoas. A gravação do meu álbum também foi bem desafiadora. E alguns processos bagunçados em montagens também marcaram.
O artista múltiplo

Você atua em várias linguagens. Como isso se conecta?
É tudo meio inerente, porque no fim das contas o importante é usar da sensibilidade e criatividade que se tem para chegar no resultado que se quer. E determinar um estilo para que todas estas artes tenham a minha assinatura, mesmo que ela mude com o tempo.
Existe uma linguagem que fala mais alto?
Eu acho que compor é o que mais faço bem, tanto música quanto escrita. Mas atuar é o que mais estudei.
O que te inspira a criar?
Uma inquietude e uma vontade de existir. Se eu não fizesse nenhuma arte acho que me sentiria como se não existisse. Enquanto estiver vivo quero provocar.
Território e cultura
Qual a importância da região na sua trajetória?
É importante notar as diferenças socioculturais e geográficas dos locais além de estabelecer uma rede de contatos.
Como você vê a cena cultural hoje?
Percebo que há um crescimento de oficinas culturais, embora não veja muita gente fazendo teatro que não seja comercial. Acho que Jandira é evoluída nas leis de fomento, mas carece muito de estrutura e mão de obra qualificada. Tem muita coisa amadora que às vezes uma pesquisa simples já resolveria. Também vejo muito ego envolvido.
Qual o papel do artista na comunidade?
O artista externaliza suas vivências. A arte por si só já transforma, mas vejo muitos reprodutores e poucos criadores.
A experiência como Jesus

Como surgiu o convite para interpretar Jesus?
Houve um edital onde me inscrevi já com isso em mente. Fiz o teste e passei.
O que você sentiu ao receber o papel?
Senti alívio por ter conseguido algo que eu queria e sabia que o processo seria interessante.
Como foi a preparação?
Meu preparo foi o mesmo para qualquer personagem: estudar texto, corpo e voz. Queria fazer um Jesus humano, com emoções reais. Isso aproxima o público e torna o impacto maior.
O que mais te marcou?
Ver a plateia cantando no final foi muito bonito. Também o carinho das pessoas depois, mesmo eu estando exausto.
Bastidores e aprendizados
O que o público não vê?
Organização, dedicação, pontualidade, respeito e humildade.
Quais foram os desafios desse trabalho?
O processo foi bagunçado como costuma ser. Meu desafio foi não me afetar por fatores externos e manter o foco. Também teve a parte logística, troca de figurino, maquiagem, tempo curto, que exige muita atenção.
O que você aprendeu?
Aprendi que levar o processo de forma leve é melhor, embora leve não signifique fácil.
Sonhos e futuro
Quais são seus planos?
Quero que meu projeto se qualifique na Lei Aldir Blanc e finalizar minhas músicas.
Como se imagina no futuro?
Quero performar mais ao vivo e trabalhar mais com audiovisual.
Mensagem final
O que a arte representa na sua vida?
A arte é uma sina, uma coceira que existe em mim que, mesmo às vezes não querendo, eu tenho que coçar. Ela molda minha realidade e permite compartilhar com os outros.
Que mensagem você deixa?
Crie. Nunca desista. Não espere nada em troca.
Desta forma, fico na plateia, na redação ou nos bastidores e observo que nem todo artista fala de sonhos grandiosos.
Alguns falam de permanência.
De continuar criando, mesmo quando o processo é difícil, mesmo quando o caminho é instável, mesmo quando não há garantias
Andreony não romantiza a arte. Ele a vive.
E talvez seja justamente isso que torna sua trajetória tão potente:
a arte, para ele, não é apenas promessa, é necessidade.
E enquanto houver inquietação, haverá criação.
Por: Adriana Biazoli
Imagens: Rede Social do artista/ fotos cedidas

