A criadora de conteúdo Maria Bodour provocou milhares com um reel sobre solitude feminina. Nos comentários, um homem respondeu com uma honestidade rara. E juntos, eles colocaram no ar uma conversa que não pode mais ser adiada
“Seguimos rumo à extinção.”
Foi com essa frase que a criadora de conteúdo Maria Bodour abriu um reel que rapidamente tomou conta das conversas nas redes sociais. Em seu perfil no Instagram, onde compartilha reflexões sobre relações, autonomia e lifestyle de autocuidado com mais de 33 mil seguidoras, ela tocou num ponto que muitas mulheres reconheceram imediatamente, mas que poucos espaços permitem discutir com honestidade.
Por que cresce o número de mulheres que, ao fim de um relacionamento, escolhem ficar sozinhas?
A pergunta parece simples. A resposta não é.
A geração que assistiu a tudo
Existe uma geração de mulheres que cresceu observando. Viu a mãe trabalhar fora o dia inteiro, voltar para casa e recomeçar um segundo turno, cozinha, filhos, casa, marido. Viu a avó que nunca teve conta no banco, que precisava pedir dinheiro para comprar uma roupa, que adoeceu cuidando de todo mundo e esqueceu de cuidar de si.
Essas mulheres cresceram com uma imagem muito clara do que o casamento e a maternidade podiam custar, e com uma pergunta silenciosa que foi amadurecendo ao longo dos anos: é isso que eu quero?
Não é rejeição ao amor. É uma avaliação honesta do que, historicamente, o amor tem exigido das mulheres.
A dupla jornada, trabalhar fora e ser responsável pela casa, nunca foi dividida de forma igualitária. A tripla jornada, acrescida do cuidado emocional com os filhos, com o marido e com a família estendida, é ainda menos discutida. E a jornada invisível, que é gerenciar a vida de todos, lembrar dos compromissos de todo mundo, organizar o que precisa ser organizado, raramente aparece nas conversas sobre igualdade de gênero.
Mas ela está lá. E as mulheres sentem o peso dela todos os dias.
Ser mãe de um adulto
Um dos comentários mais curtidos no reel de Maria Bodour dizia, com uma precisão cirúrgica: “Ser solteira não é um estado civil, é um estado de PAZ.”
E ainda: “É por isso que quando a mulher se divorcia ela fica linda e maravilhosa, porque é um filho a menos.”
Esse último comentário dói. E ao mesmo tempo revela algo que precisamos encarar: há uma parcela significativa de relacionamentos em que a mulher não divide a vida com um parceiro, ela administra a vida de dois adultos. Ela lembra, organiza, cuida, antecipa, resolve. Ela é companheira, mãe, assistente, terapeuta emocional e gestora doméstica, enquanto o outro simplesmente existe no espaço que ela criou e mantém.
Quando esse relacionamento termina, a sensação não é de perda. É de alívio.

O homem que conseguiu ouvir
Mas entre os comentários, um chamou atenção por razões diferentes. Não era de uma mulher aliviada. Era de um homem. E o que ele disse merece ser lido com atenção:
“Por anos não cuidei de nada, só trabalhava. Depois, a duras penas, consegui ouvir o que era me dito mas não conseguia entender. Vejo o quanto meu amor sofreu. Hoje penso que tenho uma dívida de anos a pagar, faço muita coisa em casa e vejo que é uma dívida impagável se continuar a pensar assim. Vejo que a causa disso é mesmo o costume dos pais, que acostumam os meninos sem tarefas domésticas, ensinando somente as meninas a fazê-las. Seguimos adiante.”
E termina com Renato Russo: “O pra sempre, sempre acaba? Agora tanto faz, estamos indo de volta pra casa.”
Esse depoimento é raro. Não porque homens não sintam culpa, muitos sentem. Mas porque poucos conseguem transformar essa culpa em compreensão real do que aconteceu. Ele não disse “mas eu trabalhava para sustentar a família.” Não disse “ela também errou.” Não desviou o olhar.
Ele disse: meu amor sofreu. E eu não via.
A criação que ninguém escolheu — mas todos perpetuam
O ponto mais importante do depoimento não é a culpa. É o diagnóstico.
“Vejo que a causa disso é mesmo o costume dos pais, que acostumam os meninos sem tarefas domésticas, ensinando somente as meninas a fazê-las.”
Essa frase desmonta um dos argumentos mais usados para encerrar o debate antes que ele comece: a ideia de que os homens que não participam da vida doméstica são simplesmente preguiçosos ou mal-intencionados.
Muitos não são. Muitos são, simplesmente, o resultado de uma criação que nunca os preparou para dividir um lar. Cresceram vendo a mãe fazer tudo. Não foram ensinados a cozinhar, a limpar, a organizar, a antecipar necessidades. Entraram num relacionamento carregando um manual incompleto, e não sabiam que estava incompleto porque nunca tiveram acesso ao capítulo que faltava.
Isso não os isenta de responsabilidade. Mas coloca a responsabilidade no lugar certo: não apenas no indivíduo, mas no sistema que o formou.
A dívida que ele reconhece — e o que fazer com ela
“Hoje penso que tenho uma dívida de anos a pagar, faço muita coisa em casa e vejo que é uma dívida impagável se continuar a pensar assim.”
Essa parte do depoimento é, ao mesmo tempo, a mais honesta e a mais importante.
Porque a dívida, de fato, não se paga. Não há quantidade de louça lavada que devolva os anos em que uma mulher carregou sozinha o peso de dois. Não há divisão de tarefas que apague o cansaço acumulado, a raiva engolida, a sensação de invisibilidade.
Mas a percepção de que a dívida é impagável não deveria paralisar. Deveria redirecionar.
A questão não é quitar o passado. É construir o presente de forma diferente. É reconhecer que participar da vida doméstica não é ajudar, é co-habitar com responsabilidade. É entender que o cuidado com a casa e com os filhos não é território feminino cedido à boa vontade masculina. É território de quem vive ali.
E é, principalmente, perceber que essa mudança não serve apenas à parceira. Serve ao próprio homem, que, ao dividir o peso, também se liberta de uma versão de si mesmo que foi construída sem o seu consentimento.
O que é o lifestyle de autocuidado — e por que ele importa
Lifestyle, ou estilo de vida, é o conjunto de hábitos, valores, atitudes, comportamentos e preferências que definem como uma pessoa vive o seu dia a dia. O chamado lifestyle de autocuidado que Maria Bodour e tantas outras criadoras de conteúdo promovem não é egoísmo. É a descoberta, muitas vezes tardia, de que cuidar de si não é opcional.
Dormir bem. Comer com atenção. Ter tempo para pensar. Sair sem precisar explicar para onde. Tomar decisões sem consultar ninguém. Ter silêncio quando quer silêncio.
Para mulheres que passaram anos numa relação em que essas coisas eram negociadas, disputadas ou simplesmente inexistentes, a solitude não é solidão. É, como disse uma das comentaristas, um estado de paz.
E solitude não é o mesmo que solidão. Solidão é a dor de querer companhia e não tê-la. Solitude é a escolha consciente de estar consigo mesma, e encontrar nesse espaço algo que vale.

Estamos fadados à extinção?
A provocação de Maria Bodour é, claro, uma hipérbole. Mas ela toca num dado real: o número de mulheres que escolhem não casar, não ter filhos ou não reatarem após um término tem crescido consistentemente nas últimas décadas.
No Brasil, segundo dados do IBGE, o número de mulheres vivendo sozinhas cresceu significativamente nos últimos anos. A taxa de nupcialidade caiu. A taxa de divórcios aumentou, e em boa parte desses casos, a iniciativa foi da mulher.
Isso não é um colapso social. É uma mudança de escolha. E mudanças de escolha acontecem quando as condições da escolha anterior deixam de ser aceitáveis.
A questão não é se as mulheres vão parar de se relacionar. A questão é que elas pararam de aceitar qualquer relacionamento. E isso deveria ser uma notícia boa, inclusive para os homens que estão dispostos a construir algo diferente do que as gerações anteriores ofereceram.
O que esse debate exige de todos
Esse debate não é contra os homens. É sobre o que os relacionamentos têm exigido das mulheres de forma desproporcional, e sobre a necessidade urgente de que isso mude.
O depoimento do homem nos comentários de Maria Bodour coloca uma outra pergunta na mesa: e se a história pudesse ter sido diferente? E se ele tivesse aprendido a ouvir antes? E se a criação dele tivesse incluído o que foi ensinado apenas às meninas?
Não é uma pergunta para justificar o que aconteceu. É uma pergunta para o que ainda pode acontecer.
Porque existe uma geração de meninos crescendo agora. E a forma como estão sendo criados vai determinar, em grande parte, que tipo de parceiros vão se tornar. Se vão entrar num relacionamento com o manual completo ou com as páginas que ninguém quis escrever para eles.
A mudança que as mulheres estão exigindo nos relacionamentos não pode depender apenas das mulheres. Ela precisa, urgentemente, passar também pela forma como criamos os meninos.
Seguimos adiante
O homem do depoimento termina com Renato Russo. Maria Bodour termina cada vídeo com: “nenhuma experiência é individual. Você sente, eu coloco em palavras.”
Quando milhões de mulheres reconhecem a mesma experiência ao mesmo tempo, isso não é coincidência. É um sinal. E quando um homem, no meio desses comentários, tem a coragem de dizer eu errei, eu não via, e a causa começa em casa, isso também é um sinal.
Sinais merecem ser lidos com atenção.
A solitude que muitas mulheres escolhem hoje não é o fim do amor. É o recado mais claro que o amor já recebeu: mude, ou aprenda a ficar de fora.
Seguimos adiante.
Mas, com sorte, de forma diferente.
Siga Maria Bodour no Instagram: @mariabodour
Sobre a Autora

Adriana Biazoli é jornalista, escritora, contadora de histórias e apaixonada pela arte de comunicar. Com sensibilidade e escuta atenta, transforma encontros e vivências em narrativas que tocam o coração. Avó de três , sendo uma; criança autista, escreve para informar, acolher e inspirar.
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Nossa Oeste- Jornalismo com propósito
Por: Adriana Biazoli

